dama da rua

setembro 12, 2014

Ela teve muitos nomes nessa vida, mas usa aquele que escolheu para ela. Dama. Mas pense você que era dama pela forma educada de recusar a saidera ou pelo tom sussurrado ao levar a mais calorosa das conversas. Era dama de nome apenas.
Quando entrava no jogo, seus olhos, sempre incandescentes, corriam famintos pelo tabuleiro. A língua umedecia o sorriso de encontrar sua próxima vítima. A jogada já estava armada.
Peça a peça ela devora qualquer adversário, sabendo que tem o mundo nas mãos. O calor oma os corpos e peça a peça o suor encontra espaço para se fundir. Não há canto para se esconder, não espaço para fugir. Não há nem vontade de resistir.
Entregue à voracidade de sua boca, só resta esperar que ela não acabe o jogo que começou. Mas ela acaba, com um cigarro desdenhoso na boca que emprestou. Era uma dama na rua, comendo a vida de quem passa por ela.

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até breve

julho 14, 2014

O coração batia tão forte que era possível ver peito pular. Respiração pesada, pupilas dilatadas, adrenalina acordando cada músculo do corpo. Se não fosse pelo vento beijando seus rostos, seria certo que estavam transando.

 

Como crianças sentadas numa cadeira alta demais, os dois balançavam os pés descompromissadamente, resgatando a memória (contorcendo a verdade) de que o chão estava a poucos centímetros deles. Mas a realidade nunca é tão doce. Seus pés ansiosos sabiam que não resistiriam aos dezoito andares que os separavam da multidão que se acumulava.

 

Você tem certeza? – ela sabia a resposta, mas seu espírito zombeteiro precisava se afirmar.

 

Tem certeza? – insistiu.

 

Ele se ajeitou no lugar mostrando a incapacidade que há tempos o acompanha.

 

Vai doer?

 

Doeu quando você decidiu que ia se apaixonar por mim. Agora você só precisa escolher como vai chegar lá embaixo. Se vai enfrentar o amor ou se entregar à vergonha de novo.

 

Mesmo hoje sendo o primeiro encontro desses dois corações, ela o conhecia desde o primeiro trago de ar.

 

Eu tô com medo.

 

Ainda bem. Você sabe então como todo salta termina com um duro encontro com a realidade. Mas você também sabe que no fim, o que vale são as coisas que você vai viver durante a queda.

 

Preciso pensar.

 

Diferente de você, eu tenho o tempo a minha disposição.

 

Quanto mais curiosos e sádicos se aglomeravam para acompanhar a decisão daquele pobre atormentado, menor ficavam as poucas certeza que chegaram ali em cima. Mesmo sabendo que na platéia uns torciam pelo final feliz e outros, para serem felizes com a miséria do final, do topo, todos pareciam apenas um. Uma massa confortante e confortada na rotina. De longe, pareceu simples fazer parte, compartilhar a vida. Mas claro que essa revelação traria seus temores.

 

Se eu voltar, a gente vai se encontrar novamente?

 

Cedo ou tarde, é nosso destino ficarmos juntos. Mas você vai escolher quando da forma que descer. Leve junto seus medos, anseios e incertezas se quiser me ver depressa. Ou enfrente essa multidão que te habita e perceba que ela é só você. Até breve.

 

Espera. Eu ainda não decidi. Gostaria que você ficasse um pouco mais.

 

Você já escolheu.

 

Os olhos sorridentes não ornavam com a linguagem desdenhosa do resto do seu corpo. Sem hesitar ou bater a porta, ela partiu ao encontro de mais uma paixão. Ele ficou, com os pés firmes, o sol aquecendo suas certezas e o mesmo vento zombeteiro que a trouxera.

 

Sabendo que era só o começo, ele saltou.

 

fumaça

fevereiro 18, 2013

Mais um trago de uma morte rápida…

Nunca fez o menor sentido se manter tão atado à esse tipo de prazer. Tudo era fumaça.

Ainda era creditado esse tipo de masoquismo ao prazer de fumar. Mas não.

NÃO.

É uma tortura muito mais antiga. Uma que corrói consome conduz.

Novamente

Era amor.

AMOR?

amor.

Belo, furtivo e cruel.

Mais uma tragada funda e provocante.

Assim se morre mais rápido com o tempo parando ao seu redor.

Com uma tragada inocente.

Furtiva, bela e cruel.

Mais uma tragada no amor.

Que mata morrendo. Que morre.

Nome pele flor.

Que maldade.

Nome pele dor.

Dê, mais uma vez, uma forte tragada no amor.

elas

fevereiro 15, 2013

ela era água e fogo

ela era fogo e água

sedução

explosão

equação

elas se encaixam e encaixam os que estão ao redor

provocam na sutilezas de seu romance

dois pecados abençoados

dois pedaços despedaçados

elas são fogo em público e deságuam na cama

vermelho e preto em fagulhas

leite e vermelho na boca

ah! as bocas

explodiam sexo ao se tocarem

ferviam Vênus e Vênus

fogo e água

água e fogo

constelar

fevereiro 4, 2013

azul do stelar
era até cruel
um ponto singelo
um ponto perdido
toda uma galáxia azul
azul
azul de fazer sentir…
de fazer voltar
era azul de perdição
de infinito…
era azul
sem precisar de nada mais
ao fundo, um fundo longe de se chegar
de mar e ceu no mesmo patamar
de labirinto no seu triste azul stelar
era stelar
azul
como final
e afinal era…

azul

dança comigo

janeiro 11, 2013

Tudo aconteceu muito rápido.

Foi o suficiente.

Nada dela era vulgar. Comum.

Era contagiante.

Nos conhecemos pelo mero acaso do destino, como tudo que é bom deve começar. Um encontro de poucas palavras mas muitas coisas ditas.

O som crespo mexeu com alma e nos empurrou contra a parede. Ela olhou mas eu a chamei para dançar. E foi ali..

Seus olhos brilhavam com tamanha magia que até o Tempo parou para admira-los.

Seus lábios, que só eles dariam um capítulo a parte, contornavam um sorriso mole leve gostoso, daqueles que a boca abre para aproveitar.

Vi toda sua silhueta me chamando. Suave.. flutuante..

Foi então que resolvi piscar e ela passear.

Mas lembro em cada detalhe daquele segundo que resolveu parar.

menina do trem

janeiro 9, 2013

Quando a conheci, sua cabeça, sorriso e ideias voam do lado de fora da janela.

Pura em loucura e felicidade.

Quando a conheci seus medos eram levados pelo vento que dava brilho aos seus cabelos (AH que cabelos) e penteava, em camera lenta, cada fio da sua existência.

Até o sol, raro naquela estação, acordou para ver o espetáculo que ela, tão inocente, organizou. Mas ele mesmo rubrou (de vergonha ou de paixão) quando seus olhos abriram. Um mundo caiu da escuridão.

Quando a conheci, havia vida correndo em seus trilhos. Vida, aventura e solidão.

Faltava pouco para a chegada na minha estação. Meus pés lutaram mas a razão se impôs. Desci já com gosto de recordação.

Quando a conheci, era só uma menina pendurada na janela de trem qualquer, e que agora, me acompanha no caminho do trabalho.

à luz

janeiro 7, 2013

Naquela manhã o sol acordou do lado errado.

Na verdade já havia tempos que ele não sabia por onde surgir, confundindo as sombras daquela velha cidade. Não que fizesse alguma diferença na pacata rotina do povo ou mesmo que gerasse qualquer questionamento em seus espaços de descanso.

O Sol estava nascendo ao contrário, mas isso não é de se preocupar.

Demoraram a notar que algo não estava normal.

As crianças foram as primeiras a perceber, os idosos os primeiros a reclamar.

Profecias prosas promessas.

Cada um com suas armas lutou contra ficar de fora do assunto.

Uma cruzada para salvar a humanidade do apocalipse estava montada e só foi preciso de uma qualquer celebridade para acabar com o vazio de todos. Tudo voltava ao normal.

Em pouco tempo, todos se adaptaram com as coisas inversas.  Até aqueles mais espertos conseguiram bons rendimentos com a ignorância alheia.

A fé se engrandesceu com a provável fúria divina com nossos tantos pecados. A política se reelegeu com a falta de perspectiva do povo.

O sol continuou ao avesso fazendo as sombras dançarem ao contrário até tudo parecer estar bem. Foi quando ele cansou e foi dormir.

Na penumbra, sairam às ruas os loucos, os cegos, os ratos e urubus. Os loucos, os cegos, os ratos e os urubus tomaram posse do que não pertence à ninguém. Criaram o medo no que sobrou de existência.

Entre o pó e o caos, ela não imaginou ter em seu ventre o recomeço e assim sem saber, deu a luz à esperança. Entre os loucos, os cegos, os ratos e urubus, ela trouxe ao mundo mais uma Luz.

Com nome de felicidade e harmonia, com Luz no nome e na vida. Poucos perceberam sua magnitude, mas começou naquela pequena embalagem a mudança.

Já faz tempo em que a vi esboçar seu primeiro sorriso, colocando no lugar certo as sombras que haviam escapado. Ouvi suas primeiras palavras junto de um suspiro de alivio de todo o quarteirão. Era a Luz em sons.

A vi crescer.

A vi aumentar e até ofuscar alguns olhos curiosos.

A vi fazer a vida ter um novo sentido, mesmo sem saber o que fazia.

A vi, de luzinha em luzinha, tirar o mundo da escuridão.

inteiro

janeiro 3, 2013

Deixe a metade viver


Aquela metade que sangra
que chora
que vive


Celebre
deixando apenas aquela metade viver


Sem medo de sofrer,
pior,
de ser feliz

 

Deixe metade viver

onde tudo é sorriso e vaidade,
onde tudo é metade


Deixe de viver
de solidão
de escuridão


Deixa,
somente deixa,
aquela metade viver.

Nem Sonhando

agosto 10, 2012

Merda. Era só um sonho.

Após perceber a burrada que foi acordar, mantive os olhos fechados por mais um tempo tentando trazer ela de volta. Mas como pode? Tudo foi tão real.

Ela estava ali, branca, lisa e nua, gemendo em uma sinfonia particular. Talvez foi o toque macio do seus lábios que me despertaram.

Não.

Foi a pressão de suas coxas me levando ao delirio que impediram de viver essa realidade paralela por mais tempo.

Meio sem saber o que fazer, resolvi me apaixonar mesmo sabendo que ela rejeitaria qualquer das mais inusitadas abordagens que eu pudesse fazer ao longo dos anos.

Começou assim.

A gente se encontrava todo dia. Eu a via, ela não. Eu percebia cada pequena variação em seu sorriso, ela ignorava.

Pensava em como chamar sua atenção para no próximo segundo a perder de vista.

Eu estava aqui, ela lá.

Sem perder essa ligação inconsciente que nos mantém atados.

Ainda fecho os olhos na esperança do sonho continuar.


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