Meu presente para vocês

Outubro 2, 2008 por Daniel

“Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir.”

Sócrates

Estava ansioso demais.

As festividades estavam chegando e ele duro de sentimentos.

Tinha amigos pela pessoa que ele inventava ser. E vamos encarar os fatos, ele era uma péssima pessoa. Mentia como a péssima pessoa que era.

Contador de histórias profissional. Aprendeu tudo com seu pai, um alcoólatra em ascendência que precisava ganhar a vida de algum jeito. Sua mãe só conheceu pelos contos e fábulas que eram inventadas. Ora glorificada pela vó, ora prostituida pelos tios. Orava para um dia ter a chance de conhecê-la de verdade.

Foi criado entre mentiras de vida. Só lhe restava uma vida de mentiras.

Acabam aqui as verdades dessa história. Para conhecer a fundo nosso personagem seria preciso mudar o começo de sua vida, e tornar real essa trama embaralhada de sentidos roubados.

Logo nos primeiros passos aprendeu a sentir vergonha pelos erros dos outros. Mentia inocentemente fugindo de dedos e olhos maldosos.

Por crianças sem dó foi atacado no lixo de brincadeira e no lixo encontrou sua personalidade.

Deixou por lá o seu caráter. Para viver como ele, ter caráter é apenas um peso extra nas costas.

Ao longo de suas histórias, conquistou amigos. Muitos amigos. Não os amava. Sentia que os possuía. E quando eles precisavam, precisamente ele os ajudava, com todo o esforço desumano que ele tinha. Ele não sentia pena, mas mentia que sim.

Preguiçoso de criação, não tardou para arrumar emprego. Odiava ter que trabalhar, mas enganava a todos sendo consecutivamente eleito o funcionário do mês. Nessa epóca, passou pela sua cabeça tornar a ser uma pessoa sincera, mas sentiu na boca do estomago o vômito quando lembrou das crianças atacando verdades e restos de comida na sua cara. Verdades que nem eram dele.

Quem mente no trabalho, mente em casa.

Não era inteligente e escondendo isso de todo o resto de familia que tinha, ingressou na universidade. Não estava feliz mas sorria.

Tomou posse de muito mais amigos nessa epóca. E como por engano, se graduou com méritos.

E casou com uma mulher que não amava.

Teve filhos com quem não queria brincar.

Estava ansioso demais.

Nessa epóca do ano o relógio tinha pressa.

A campainha tocou.

Olhou para trás e viu o rastro de sujeira e mentiras que contou. Refletiu. Como era possível alguém tão sem escrúpulos ter chegado tão longe. Era sincero seu questionamento, afinal, nesses momentos de solidão não temos como escapar da verdade. Aquela boa pessoa. Trabalhadora. Inteligente. Romântica. Nada era dele. Nada era ele. Eram mentiras criadas para esconder um passado, que era passado ao seu.

A campainha tocou.

E com um sorriso falso acolheu a todos aqueles a quem odiava.

Iria passar um péssimo Natal na presença de todos. E ninguém iria perceber.

Distribuiu mentiras embrulhadas. Enganos secretos. E contou sua história.

Sua verdadeira história.

E dentre risos e chacotas ele percebeu que a sua maior mentira, foi ter contado a verdade.

E vai ser outro dia

Outubro 1, 2008 por Daniel

“Para que humano a aurora não parece uma alternativa?”

Thornton Wilder

Mas hoje é um novo dia.

A noite de ontem foi boa. Nada como um banho quente para apagar os pecados do corpo.

Se esfregava rindo. Cada parte um nome, uma história, uma luxúria. Banda boa, pessoas bonitas, segredos.

Cansado e sorridente, estacionou seu carro. Onde não importava, nada podia dar errado hoje.

Exceto no seu emprego. E como ao abrir a porta de um canil, latidos ferozes invadiram os corredores, botando medo nos novos e velhos visistantes. Sentiu que não devia ter extrapolado tanto na noite anterior do seu primeiro dia de trabalho, mas se conformou acreditando que ninguém iria reparar em suas olheiras.

Entrou estranhamente tímido.

A recepcionista percebeu seu olhar malicioso e pediu para aguardar, seu novo chefe estava em reunião.

- Gosto de pontualidade.

- Desculpa senhor, eu peguei muito trânsito e…

- Já conheço essa – cortou ríspido – hoje seu trabalho é não me atrapalhar. Como pode ver estamos no meio de um caos e não terei tempo de explicar suas funções.

Almoçou calado.

Sentado calado o dia todo via lentamente o ponteiro girar. Jurava até ouvir o barulho que o relógio de parede estava fazendo.

Foi embora calado.

E no silêncio quase esqueceu de todas as maravilhas surreais vividas na noite anterior.

Dormiu sorrindo, acordou cansado.

Mas hoje é um novo dia.

Ontem foi estressante e aterrorizador. Hoje ia ser oficialmente seu primeiro dia de trabalho. E nada como um banho quente para aliviar a tensão do passado.

Sua mentira funcionou, e apesar de sair cedo, ficou preso no trânsito.

- Garoto, fico admirado com a sua maneira de ser reconhecido.

- Senhor, o trân…

- Duas mentiras seguidas. De qualquer maneira, você será meu assistente. Você está tomando nota?

- Eu nem tenh…

- Huuum, e pró-ativo. Preciso dar uma medalha para quem te contratou. Marque de cabeça então. Hoje a tarde terei uma reunião com os corretores. Preciso que você pegue meu terno em casa e leve para…

A lista interminável de tarefas dava sono. Ele não conseguia se concentrar. Queria pensar em algo bom. Lembrou da noite, esqueceu do emprego.

Cafés e broncas durante todo o dia.

Com raiva, só queria dormir.

Acordou triste e desanimado. Sonhou que estava de novo na mesma balada. Mas foi acordado pelo tempo antes mesmo de conhecer alguém.

Mas hoje é um novo dia.

E nada como um bom banho quente para esfriar a frustação que sentia.

No trabalho, os dias não tinham diferença. Horas para os minutos passarem.

Caos em tudo. Na vida, no trânsito, na faculdade.

- FACULDADE!!!

Esqueceu de tudo. Tudo por um começo em algo que sonhou ser feliz. E ele tinha sido feliz. Lembre da noite de domingo dizia seu insconciente. Mas não lembrava.

Só pensava em dormir.

E acordar amanhã.

Porque amanhã vai ser um novo dia.

Ensaio sobre um ensaio

Setembro 23, 2008 por Daniel

“responsabilidade de termos olhos quando todos os perderam”

José Saramago

Então vamos lá. Inevitável não comentar sobre o maior espetáculo que se pode não ver. Como nossos sentidos se confundem ao ler e assistir à maior obra já resenhada sobre o mundo. Não vivi tanto para dizer isso, e ainda assim, vivi muito ao viver essa experiência. E me fez pensar, será, que já não estamos todos cegos com a nossa própria ignorância. Sim. Sócrates sabia que nada sabia, o que o tornava são, mas e a nós? O que resta? Somente a clara escuridão que Saramago e sua genialidade nos faz enxergar. E ao final da última página. Ao final do último segundo, só me resta uma coisa a ser dita. Estou cego.

Chuca cerebral

Setembro 22, 2008 por Daniel

“A consciência limpa serve de travesseiro macio.”

John Ray

To precisando de uma descarga mental.

Não sei o que passa, mas me falta a concentração.

Eu desculpem-me pela ignorância, mas tá foda só pensar em merda.

Comecei três textos novos e parei no primeiro paragrafo, e me auto-citando, to confuso pra caralho.

Pronto, desabafei.

Vou meter a cabeça na privada e dar a descarga.

Quem sabe assim consigo me concentrar.

E o Zeppelin

Agosto 26, 2008 por Daniel

“Não há prazeres verdadeiro sem necessidades verdadeiras.”

Voltaire

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Deu um soco no despertador.

Sentia uma estranha sensação de poder cada vez que fazia isso. Todo dia ela fazia isso.

Já estava acordada. Não conseguiu dormir muito tempo. Noite longa, de muitos amores.

Estava com sono. Seus olhos ainda estavam borrados de lápis e luxúria. Sua sombra já se espalhava por todo seu rosto.

Espreguiçou-se.

Precisava se limpar. Precisava se cuidar.

Saiu. Já era tarde. Tinha que fazer o almoço. Não tinha fome, nem vontade de comer. Sentia nojo de tudo que tocava. E há tempos a comida já não tinha o mesmo sabor.

- Fazer o que? – Sozinha ela pensava. Tinha que comer. Não conseguiria trabalhar sem comer. Já tentou, e lembra de cada cicatriz como se fosse ontem. Bom, tiveram as cicatrizes de ontem.

Sacudiu a cabeça. Não tinha tempo de pensar. Sonhar não bota comida na mesa. Sonhar não enche barriga. “Mas alimenta minha alma” – PARA MENINA!! Não pode isso não.

Fez as compras. Do mês. Da semana. Do dia. Parecia que sempre comprava menos.

Tiiididididi

Nem percebeu que mais um dia tinha passado. Acordou bocejando.

A noite foi longa. De muitas luxúrias. Como foi que ela acabou nessa situação? Tinha um sonho. Uma vontade. Uma ambição.

Tinha estudo. Família. Vontade.

Tinha tesão.

- Foi isso. Foi isso. – CALA A BOCA!!!!

Voltou a cozinhar.

Se lembrou que tinha que lavar a roupa de cama hoje. Era o dia dela.

Tiiididididi

Tiiididididi

Quase não se levantou.

Já estava exausta dessa vida dupla. Tripla. Quádrupla.

- AAAAAA assim você gosta. NÃO. SAI. QUEM É VOCÊ?

- Preciso ir no médico – pensou.

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Sem forças para levantar, caiu.

Ela tinha que largar essa vida. Mas a vida já a tinha abandonado.

Queria parar, mas seu vicio não deixava.

Sua luxúria a queimava.

E seu sexo a consumia.

Ela queria voltar. Mas precisava daquilo.

Não era rica. Não queria ser.

Não era bonita. Não queria ser.

Mas era boa. Era única.

E naqueles 30 minutos, ela era amada.

Morreu só. Cercada pelo vermelho da luz da sua casa.

Cercada pelos seus pulsos cortados.

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Tiiididididi

Palavras, palavras, palavras.

Agosto 18, 2008 por Daniel

Willian Shakespeare

“A palavra, como se sabe, é um ser vivo.”

Victor Hugo

Ponto final.

E nasce mais um.

Seu coração bate. Na velocidade das minhas teclas.

E ele respira já.

A cada expiro, uma nova inspiração.

Tem sua própria história. Tem sua própria personalidade.

Tem a sua própria vida.

E cada parágrafo, crio um herói, crio um monstro.

Crio algo que foge da minha criação.

Já não controlo mais meus dedos. Apenas escrevo a história que quer ser contada.

Agora sou eu a ferramenta do lápis.

Agora a história que me escreve.

Tento lutar, mas são palavras.

São cruéis, frias e amorosas palavras.

E como numa canção, mudam conforme a música.

Seus tons me confundem e me abraçam.

Já não consigo mais parar.

Escrevo. Escrevo. Escravo.

Me amarram, me perseguem, me tiram o sono e me fazem cochilar.

Amigas assassinas. Não sabem o que fazem de mim.

Quero desabafar, mas não tenho a quem recorrer.

Só me restam palavras.

Que jogam , me jogam.

Me levam do céu ao inferno em menos de uma crase.

Me perco.

Não sei mais o que escrevo.

Escravo.

Escrevo sem saber por onde terminar.

Meu monstro foi criado.

Um Frankstein de sentimentos e versos.

Ele tem vida, e não depende mais da minha.

E nasce mais um monstro.

Ponto final.

Infinito em 1 seg

Agosto 13, 2008 por Daniel

Não é fácil ser o orador da turma. Ainda mais tendo de 3 a 5 minutos para falar de 4 anos maravilhosos.

Mas pensando bem. Foi esse o tempo que ela durou.

Então vamos lá.

Valendo.

Ela começa divertidamente aterrorizante. Os primeiros 15 segundos do trote mostram que o mundo, a gente ainda não conhecia.

Uma vida nova nos espera. E de cabelo raspado, cara pintada e perdidos, enfrentamos pela primeira vez nosso medo de crescer.

Estranho que já nesse momento crescemos.

Mas vamos para de enrolação, o tempo passa e a gente nem percebe.

Nas primeiras aulas, os primeiros tropeços. A angustia de conhecer o primeiro professor, seus primeiros últimos amigos. E em 10 seg já definimos quem seria nossa panelinha.

E como o tempo voa, em 5 seg já fizemos 3 churrascos, 4 baladas e muitos porres no lar de Maria Antonia.

Mas ainda era cedo.

O relógio tinha apenas começado a andar.

Era cedo pra dizer que te…

- Po, te curto pra caralho velho.

E nos 30 seg, a gente já demonstrava as faces desse curto sentimento.

E sempre mais festas, mais visitas a Maria. E mais tombos.

Crescendo de uma maneira que ninguém consegue explicar. Mas crescendo.

Passada a primeira DP, o tempo começa a se apressar.

Trabalhos em grupo?

- Vamo toma uma antes?

Estudar pra prova?

- Assina a lista pra mim, tem as moral?

O semestre já ta acabando, e a intimidade começa a aumentar.

O tempo corre, e o Juca passa em 11 segundos.

E lembramos como se fosse a primeira noite.

Passou um ano, e cada vez mais a panela crescia.

E sem entender como isso acontecia, a gente crescia.

Já pensava em trabalhar. Em voltar as 8 da manhã na casa do amigo.

Amigo?

- Cara, você é um puta irmão meu.

Pronto saiu. Meio engasgado na garganta mais saiu.

E demorou. Quase 1 minuto e meio.

E sem perceber, a Maria ia perdendo a graça.

Também, depois de tanto tempo, precisávamos encontrar outro lugar para se divertir.

Um novo motivo para a cumplicidade.

- O que?

A amizade já acabou. Ninguém consegue passar 2 minutos juntos sem quere cobrar satisfações.

Mas no bom sentido da coisa, éramos todos cúmplices.

Onde cê foi? Pra onde cê vai? Cê ta ficando com quem ein?

Caraca, olha que horas são.

É mesmo. Tá na hora de viajar.

- Ow, vamo desce pra praia grande no final de semana?

E na sujeira que sai o primeiro te..

- Po Ronaldão. Para de enrolar e fala logo que ama.

Tá bom, ta bom.

Eu amo..

- Ow, vocês viram como o tempo passou rápido. Meu, já tamo 6 semestre.

Já passamos dos 3 minutos. Agora o tempo começa a correr.

Sem perceber o TGI chegou.

E já foi?

Não, claro que não.

Foi o minuto mais demorado e estressante de nossas vidas.

Foi mesmo?

Bom, acho que não, mas precisava fazer uma média com os professores.

Brincadeiras a parte.

O tempo parou e fechou.

Brigas.

O fim parecia próximo.

E parece que o tempo atendeu nossas preces, e infelizmente parou.

Parou, e depois dos aplausos da apresentação, correu como nunca para alcançar o tempo perdido.

Um último porre.

Um último brinde.

Uma última festa, que não durou o tempo que eu levei para escrever esse texto.

As últimas lágrimas, sorrisos, abraços.

As últimas alegrias.

E finalmente, a gente consegue entender, que desde o primeiro segundo. A gente estava crescendo.

Que a cada hora, minuto, dia passado, a gente crescia. Contra nossa vontade, crescia.

Cada vez mais como crianças a gente crescia.

Crescemos e chegamos aqui.

No fim do cronometro.

Pensando, que de 3 a 5 minutos, foi muito tempo. E foi o melhor de todos os tempos.

A faculdade não é a melhor fase da nossa vida.

São só aqueles 5 minutos que fazem a gente se sentir cada vez mais vivo.

Mas deixa eu me apressar.

O tempo está quase acabando.

E a partir de agora, ele vai passar cada vez mais devagar.

Só para terminar.

Sem engasgo.

- Ronaldão, para de enrolar e fala logo.

Eu amo vocês.

Cada segundo desses 4 anos.

E durou tempo o bastante para se tornar eterno.

Parabéns a todos por essa conquista.

Passamos por tudo, entre mortos e feridos.

Mas passamos mais uma vez de ano.

Medo de ter medo

Julho 31, 2008 por Daniel

“O medo de quem navega é a terra.”

Amyr Klink

Tinha medo. Sempre teve muito medo. Desde pequeno.

E numa família de heróis e corajosos não era permitido ter medo.

E disso, era do que tinha mais medo.

Mas cresceu. Cresceu tímido, covarde.

Medroso.

Com medo de crescer, crescia cada vez mais. E junto, o seu medo.

Às vezes com nome. Com forma e cor. Em outras, apenas um sussurro frio na espinha. Botando medo no próprio sentimento que temia.

Crescia mais.

E precisava mudar.

Mas tinha medo.

Tudo aquilo que se mexia, que sorria, que cantava, dava medo.

Até que conheceu ela.

Sentiu medo. Um medo novo. Um medo gostoso.

Ela segurou sua mão. Não era alguém. Era paixão.

E ela cresceu.

Mostrou um mundo de medos novos. O sussurro se tornava frio na barriga.

Calafrio em adrenalina.

Acordou suado. Medo.

Que noite boa ele pensou. Acordou bem.

Com vontade de voar.

Mas tinha medo.

E coragem ao mesmo tempo.

Loucura. Loucura. Loucura – seu medo gritava.

E foi louco.

Queria ser apaixonadamente louco.

Enfrentou seu medo. Gritou de volta. Bateu, xingou, cuspiu.

A cada novo medo que chegava, mais ele brigava.

Cada vez que as paredes os apertavam, mais ele quebrava.

Soco após soco, ganhava mais espaço.

Mais confiança.

E num murro cego, ele pulou.

O novo medo de voar acabou rápido e no chão.

Mas feliz, sem medo, tranqüilo, ele pulou.

Eternal Sunshine of a Spotless Mind

Julho 29, 2008 por Daniel

“Feliz é a inocente vestal;

Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças;

Toda prece é ouvida, toda graça se alcança.”

Alexander Pope

Eu quero me lembrar. Quero recordar novamente. Não sei do que. Apenas tenho a sensação de que aos poucos vou deixando para trás todas as minhas lembranças.

Sinto que perco tudo aquilo que conquistei ao passar dos anos.

Perco a minha história quanto mais me esqueço das coisas.

Busco nos outros minhas memórias.

Escrevo em branco no papel tentando recordar, e logo que começo a escrever, esqueço por onde comecei.

Sempre me esqueço das coisas que comecei.

Esqueço de tudo que já falei.

Esqueço que falei.

Esqueço do que serei.

Esqueço porque comecei.

Assim eu vivo.


Em busca de pedaços de lembranças.

De memórias já muito relembradas e agora perdidas.

De algo que me faça entender porque comecei a escrever.

Quero me lembrar porque insisto em esquecer.

Aumentativo de folia é?

Julho 23, 2008 por Daniel

Joga bola, jogador, joga bola, conrodonco…

Sejamos diretos pelo menos aqui. Existem duas coisas que os homens adoram: futebol e Maria Chuteira. Pois bem, vamos nos ater ao primeiro.

… estamos aqui na Rua Victor Civita, 66 – B1 – Edifício 5 (5º andar) do Condomínio Rio Office Park, Barra da Tijuca Centro de São Paulo onde dentro de alguns estante o técnico do Excrete Canarinho irá divulgar a lista de convocados.

Esse é um momento impar na vida de qualquer atleta, por isso, muita atenção.

1 – Epaminondas, o grande. A altura faz dele um grande arqueiro, óbvio. Não joga mas está sempre treinando separadamente. É figura presente nos encontros boêmios de meio de semana.

2 – News House. Sofreu uma forte lesão no início do campeonato. Mas foi forte e tem se mostrado um grande lateral ofensivo, marcando belos gols. Um menino de potencial, mas ainda sofre por uma lesão passada.

3 – Denner. Líbero nato. Já fez partidas memoráveis, mas aposentou as chuteiras muito cedo. Alguns dizem que esse é seu jogo de despedida. Sua presença na concentração é questionada, pois alguns jornalistas dizem que ele morreu. Sua morte foi curta e grossa.

4 – Mexicano. Grande zagueiro, raça e boa vontade são suas características. Ele joga por música e tem um poder incrível em reunir o grupo, apesar de nunca sabermos onde suas mãos estão.

5 – Mineiro. Verdadeiro guerreiro, toca, dança e carrega o piano. Incríveis roubadas de bola e uma coragem incrível para jogar em qualquer terreno e contra qualquer adversário. Ele literalmente come a bola.

6 – Junior Capacete. Quem o viu jogar disse que era um exímio cobrador de faltas e veloz lateral. Hoje, desempenha importante papel de liderança dentro do grupo. Apesar de não estar presente em todas as atuações da equipe, ainda é o dono da braçadeira de capitão.

7 – Pedrinho. Sua mentalidade de craque às vezes o impede de fazer um jogo regular. Mas sempre que entra em campo faz verdadeira miséria com os adversários. Técnico, preciso, joga um futebol elegante. Assistências: sua marca registrada. Gol, só se for de placa e em um derby.

8 – Fernando Baiano. Sabe aqueles jogadores que arrebentam em um jogo e em outros passam desapercebidos? É ele! Mas joga pra equipe, eterno apaixonado pelo time com a letra “C” que me recuso a vociferar. Ainda é apontado como possível promessa. Só depende dele. E da letra “C” sair dos gramados é claro.

9 – Luis Fabiano. O matador. Bico, bicicleta, escanteio. Trivela, de cabeça e, se bobear, até gol contra. O que for preciso será feito. “Gol feio é gol. Gol horrível é gol. Gol mas puta que pariu que gol nojento, é gol caralho” é o lema deste atacante trombador. Foi a grande revelação da última temporada o que lhe assegurou a artilharia. Porém, cláusulas contratuais o impedem de jogar atualmente. Está em andamento na FIFA uma liminar que permitirá ao jogador voltar a presentear sua apaixonada torcida com o que ele sabe fazer de melhor: balançar as redes.

10 – Roger. O chinelinho. Um cara que poderia conquistar e encantar o mundo com seu futebol, mas sabe-se lá porque, ele não joga. Já fez atuações impecáveis em jogos decisivos, mas a pressão da torcida o fez parar. Essa convocação é uma nova chance para ele que ficou tanto tempo afastado do time. Ele parece dar sinais de que esta a encontrar seu antigo futebol.  Ou pelo menos roubar o futebol que os outros estavam jogando.

11 – Gil. Sujo, craque, indisciplinado, goleador, boêmio, um demônio na área. Seu problema com a bebida e as noitadas não o impedem de ser apontado como um dos destaques desse time. Dribla, deixa um, dois no chão, mas, as vezes, na hora de concluir, refuga. Ele tem treinado esse fundamento e isso lhe rendeu uma nova convocação.

25 – Todos sabem que ele fica no banco. E todos também sabem que ele joga na hora que precisa jogar. Mens.. digo jogadas mirabolantes, que levam ao delírio até o time adversário faz dele uma arma potente em campos. O único problema real, é que o jogo só (digo novamente frisando o só) SÓ tem 90 minutos. Com mais 3 horas ele marcaria todos os gols.

A tática sempre é ofensiva, muito por sinal. Independentemente da escalação, de quem vai jogar, de quem está motivado ou bêbado antes da hora, somos um time. Um grupo, uma seleção de amigos.

Granja Comarí o caralho!

Noite de céu limpo, tempo quente. Uma atípica noite de inverno era tudo o que a gente precisava pra entrar animado em campo.

Isso, e aquela mistura de bebidas que a Senhora Augusta preparava em todas as noites de partida.

O papo oscila entre trabalho, vida pessoal, mais trabalho, uma Brahma e um copo. O clima esquentando, um bomberinho. Uma olhada zonza no espelho. Acho que o nervosismo está me embriagando. O coração começa a disparar. Olho para o relógio. Duas e meia. Tá chegando a hora.

- Vamo, vamo, vamo – ele parece nervoso – já tamo tudo atrasado.

Alguém paga a conta. Um beijo de boa sorte na Augusta. Saimos correndo sem olhar pra trás;

E nem tínhamos motivo para olhar. O caminho até o gramado não é longo, mas é tenso: viados, putas, junkes, emos pedindo autógrafos para o News House, punks, nós-e-os-bêbados, mendigos e os malditos guardadores de carros a nos olharem.

Até o campo, a corrida é divertida e descontraída. O aquecimento sempre dizia como ia ser o jogo. A noite prometia.

“É milho, é gatas, é duas fichas de catú.”

A noite realmente prometia.

Parece que a arquibancada já pressentia a chegada dos atletas.

Umbabarauma, homem gol. É amigo… são todos pontas-de-lança africanos.

- Obrigado por ter vindo.

Na entrada, os vestiários. Já dava pra sentir o tremor no chão lá de baixo. Gritos indicavam que o jogo já tinha começado. Tambores, metais, instrumentos juntos fazendo um coro para animar a torcida.

- Corre neguinho. Sobe logo.

E aquele momento mágico, contagiante e rotineiro de quase todo fim de semana, só quem viveu sabe: a escada que levava aos gramados escondia todo o campo. Só nos últimos degraus que a gente conseguia enxergar aquela escuridão.

O time pronto, todos reunidos.

Uma troca de olhares.

- Bora time, o jogo começou.

posto e composto por Silva e Xavier.