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“Não há nenhum prazer em não ter nada para fazer: o divertido é ter milhares de coisa para fazer, e não fazer nada”
John W Raper
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Precisou de tempo para se descobrir a farsa que era.
Na verdade, tempo foi a única coisa que não precisava.
Tinha todo ele na palma da mão.
E com o tempo e o lápis a disposição, descobriu essa revelação.
Bem, olhando para trás, percebe-se que sua vida não passava de uma ociosidade disfarçada.
Nunca levou nada muito a sério. Deixava na praia as idéias enquanto ia surfar. Mentira, ele não surfava, mas tinha vontade. De surfar, de fazer um mochilão, de aprender latim, de ganhar dinheiro. E com o lápis na mão, assistia seu seriado favorito.
Era óbvio que o tempo não ia perdoar. Passou junto de várias vontades. Ele crescia sem fazer nada.
Cozinhava bem, quando cozinhava, mas o seu maior hobby era ainda não fazer nada.
E contava seus sonhos com tanta convicção, que ninguém acreditava que não sairia do papel. Ou melhor do lápis.
Seguindo carreira em profissão de risco, onde se arrumam muitas desculpas para a malemolência, comeceu a sentir na pele e no lápis a sua falta de dedicação. A sua falta de ocupação para seu ócio. E seu próprio amigo chamava sua atenção. Ele também queria ter utilidade, porque é de conhecimento geral que o próprio ócio teme sua ociosidade.
Trabalhava até tarde, não por necessidade. Trabalhava até tarde para ter um tempo maior parado.
Não era um dia especial quando foi atropelado. Não era feriado, não chovia ou ventava. Era uma feira comum, como todas da semana. Mas foi o dia em que foi atropelado. E sua epifania não teve remorso em deixar ele desacordado no meio da rua.
A sensação de voar não era semelhante a de nenhum entorpecente que usava. Olhou para baixo e se viu realizando tudo aquilo que o lápis já sabia. Sentiu-se triste. Tentou se lembrar o que era o verdadeiro significado de epifania. Não conseguiu. Feito uma cena clássica de filme, foi ofuscado.
Não estava morto na hora que percebeu que devia olhar antes de atrevessar a rua. Mas ninguém que fica parado no meio de uma avenida, consegue contar a história depois.
Estendido no chão com o lápis quebrado entre os dedos, perdeu a reprise de um episódio que já tinha visto.
Outubro 21, 2008 às 7:11 pm |
Um belo fruto de um momento de ócio.
Estou emocionada!
Outubro 21, 2008 às 7:12 pm |
o q é epifania ?
Outubro 21, 2008 às 9:05 pm |
“Cara, ia fazer um comentário aqui, mas to meio morto hoje.”
fudido! gastou o portugues, eim?!
Outubro 21, 2008 às 9:28 pm |
bem bom!
parabens gato!
Outubro 22, 2008 às 3:58 am |
Fala Dan… blz?
Porra, desenbestou a escrever rapaz? Baixou o Saramago aí? Quem sabe daqui a pouco leremos algum “Ensaio sobre… ” by Ronas…
Me comprometo a ler tds os posts que fiquei devendo…
Seria legal se vc instalasse um RSS feed ou um newsletter, aí eu ficaria sabendo qdo tem texto novo…
pronto, dei o meu pitaco..
abraço
Outubro 22, 2008 às 12:58 pm |
Demoro Sauron, coloquei o feedburner e mais alguns widgets inuteis.
Valeu meu querido
Abraço
Outubro 22, 2008 às 1:19 pm |
Posso levar como uma homenagem?
me sinto lisonjeada!
E adorei o texto!
Continue encontrando minutos de ócio em meio a tanta correria para continuar gerando esses lindos frutos como esse.
Beijos
Outubro 23, 2008 às 12:11 am |
Agora sim, blog sem widget num é blog… Já adicionei no Google Reader.
abraço
Novembro 10, 2008 às 9:29 pm |
Qual episódio ele perdia enquanto morria no chão?
Não sei se foi intencional, mas essa resposta sugere coisas muito interessantes!
A reprise de um episódio já visto pode ser a metonímia da vida dele… Ele perde a reprise do seu ócio de cada dia… Ele morreu!
Quando afirmo que as palavras tem vida, ninguém acredita!
Novembro 10, 2008 às 9:31 pm |
Gostaria que o lápis não tivesse se partido!
Ele é maior que o homem!