No silêncio do ponto

By Daniel

“Na solidão, encontramos muitas vezes o que perdemos na conversa.”

Olívia Sabuco

Quase tropeçou nas escadas. Viu que o motorista já tinha entrado e o ônibus estava pronto para sair.

Com passos descompassados correu.

Nessas horas de atraso só nos resta infrigir a lei. Sentou no banco amarelo e relaxou. Mais um dia estava acabando e junto do corpo, o estresse iria descansar também.

Fones nos ouvidos, cabeça na janela. Mesmo preparado, a soneca custava a entrar no ônibus.

Refletindo, viu um mendigo dançando por entres o carros. Sentiu raiva. Ele iria atrasar o seu tão sagrado descanso na sexta. Sentiu raiva e chegou a querer descer do ônibus para empurrar o mendigo para o seu devido lugar.

Pensou de novo.

Pensou no desespero que leva alguém a dançar sujo na rua. Pensou no pouco de atenção que ele queria.

Pensou em como se sentia sujo.

Quis escrever sobre isso, mas desistiu. Sua mente estava perturbada.

Tentando dormir começou a reparar.

Nas ruas, nas pessoas, no ônibus.

E viu, sentado na frente do volante, uma peça que ninguém mais nota.

A ferramenta que nos leva embora, que nos guia.

Ele passa despercebido, mas claro, ele é só um motorista de ônibus.

Mas esse não era uma estátua qualquer. Ele queria ter vida. Queria ser notado.

E foi reparando que ele percebeu. No primeiro ponto, subiu um homem, normal como todos os homens dos contos.

O motorista olhou, mas olhou com um olhar de tristeza amarga. Olhou, e na esperança de receber um simples boa noite recebeu o silêncio.

Portas fechadas em movimento. Porque só lembramos de que aquele guia só tem vida nos momentos de tensão, como por exemplo, quando comete um humano erro de abrir as portas. Ou frear bruscamente para salvar a pele de todos os seus passageiros.

No próximo ponto começou a chover. Olhou novamente. Silênciou novamente.

Murmurou algum comentário que só ele escutou. Ninguém repara ultimamente no que as estátuas tem para nos dizer.

A sequência de fatos se repetiu até a chegada a hora do desembarque.

Sem olhares, sem boa noites, sem sorrisos ou obrigados, ele seguia todo dia o mesmo caminho, levando sempre as mesmas pessoas. Abrindo e fechando portas.

Deixando em cada ponto um pedaço da sua esperança.

Passou pela catraca, sem dizer nada.

Olhou para a outra figura e não se permitiu pensar em mais nada.

Estava tonto de tantos pensamentos.

Ficou irritado com uma situação de que era cúmplice e culpado.

Quase tropeçou nas escadas. Sentiu a brisa fria e cortante no seu rosto.

Quis escrever sobre isso, mas pensou que tudo isso era falta de sono, e que o motorista não se importava se as pessoas não percebiam sua presença lá. Se conformou, abaixou a cabeça, ascendeu um cigarro.

Cansado, foi para casa.

6 Respostas para “No silêncio do ponto”

  1. Duds Disse:

    li o conto e lembrei de um texto que fiz sobre algo parecido:
    “Respeite sempre aqueles que são tidos como loucos aos olhos do mundo.
    Um dia, eles também puderam conviver em harmonia com seus próprios pensamentos.”

  2. Disse:

    Que dia, hein, Ronas?!
    Larga o cigarro, meu filho…por favor!
    Anda com uma caneta no bolso. Melhor.

  3. Bomba Disse:

    Ronas, já era hora de vc pôr-se ao seu lugar, protagonista.

  4. Bomba Disse:

    Impressionante, o qto usie pronomes pra designar segunda pessoa.

    Isso deve ser um problema.

  5. - van - Disse:

    Só tenho uma coisa a dizer: daqui a pouco, qdo eu subir no ônibus, lembrarei de desejar boa noite ao motorista e ao cobrador.

  6. A mesma moça qualquer Disse:

    Espero que esse menino, tenha mudado de ideia e não se conformado!
    Na verdade, eu sei que ele não se conforma!
    Assim são as pessoas sensíveis.

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