Olá PORRA

Março 16, 2009 by Ronas

Eu juro que queria ser uma pessoa normal, sorrir, ser simpático e todas essas viadagens que caracterizam um ser humano sociável.

Não sou e ponto. A culpa não é minha. É da porra da mariposa.

Óbvio que você, leitor assíduo e desinformado, vai perguntar.

- Que porra de mariposa?

Não importa. São todas do mal. As bunituchinhas/rosinhas/inofensivinhas, as pretas, as brancas, as que se escondem no meio do mato só esperando pra dar o bote (não, não é cobra caralho).

Só que a desse insight é especial. Tem até nome.

PORRA.

Bonito, não é mesmo?

Bom, tudo começa assim: não bastando eu mal ter dormido na noite anterior e estar cheio de tarefas e pouco prazo, me deparo com um desses demônios que se disfarçam em corpos alienigenas.

Marrom, peluda e parada na parede.

Pensei.

- Pronto, Tony Ramos voltou da praia e entrou pela janela. Era o que faltava.

Infelizmente estava errado.

Já faz 5 horas que ela se encontra parada no mesmo lugar. Me dando as costas. Me ignorando. Só esperando o momento oportuno para um voo raso e certeiro. Para me dar um susto e me fazer parecer uma menininha alucinada.

Suor desce pelo meu rosto.

- Liga o ar então.

- Já não disse que é a porra da mariposa?

Começo a pensar e vejo que existe algo em comum com toda a angústia, a miséria, o ódio, o cheiro azedo nos bêbados. Tudo é culpa da porra da mariposa.

- A mariposa PORRA?

- Não. A porra de todas as mariposas.

Foi então que percebi. Elas são o mal no mundo.

Será que só eu vejo isso?

Mensagem aos Pais

Janeiro 26, 2009 by Ronas

Texto velho que escrevi para o álbum da formatura. Achei ele e quis postar.

“A Paciência é o remédio de todas as dores.”

Publilius Syrius

Logo que eles pensam na gente, pela primeira vez, eles esperam.

Nove meses esperando. Imaginando. Curtindo.

Aí nascemos, e eles esperam a gente andar. Falar. Dar trabalho.

Mas eles sempre esperam.

Eles esperam que cresçamos saudáveis, que sejamos inteligentes.

Eles aproveitam cada minuto da nossa infância, sempre esperando o primeiro dia de aula.

A primeira prova na escola, o primeiro amor.

Eles esperam.

Esperam que a gente tome um rumo certo na vida, que nos afastemos de problemas.

Que tenhamos bons amigos, boas influências.

Eles esperam a gente crescer, e a gente cresce.

Esperam que tenhamos consciência, que voltemos logo para casa.

E sempre no mesmo lugar do sofá, eles esperam.

Esperam a gente ficar melhor, depois de uma noite de exageros.

Esperam a ressaca passar para poder brigar com a gente.

E esperam que seja a última vez.

E nesse tempo, a gente cresce mais.

Trabalhamos, nos formamos, nos “ajeitamos”.

E por 4 anos, eles esperam o dia em que talvez, eles mais desejem que não chegue.

Nós crescemos, e nós partimos.

Mas eles esperam para um almoço de domingo.

Para um telefonema no meio da semana.

Para um “EU TE AMO” que muitas vezes, só fica entalado na garganta.

Para que essa saudade que dói passe logo.

E sempre, desde o primeiro dia.

Eles esperam.

Entre cachaça e limão

Janeiro 5, 2009 by Ronas

“Bebendo-se um pouco de vinho a inteligência se rejuvenesce.”

Voltaire

Terminou seu job, seu expediente. Terminava a semana e mais um ano. Terminava de ler seu livro e de escutar uma música que não se lembra. E quando terminava seu caminho para casa começou essa história.

Fechado em sua bolha só pensava em chegar logo no final da sua rotina diária quando sentou ao seu lado um bêbado qualquer. E como todo bêbado qualquer, fedia a limão.

Apesar de ser um cheiro insuportável, preferiu garantir seu lugar sentado, no fim das contas estava cansado, e pensou que enquanto ele mantesse sua boca fechada, estaria tudo bem.

Mas ele abriu a boca.

- Racio… ma.. pub….

Tirou um fone.

- O que?

- Raciocinio Criativo na Publicidade. Parece ser bom esse livro. Bem interessante. Olha, se você anotar o meu email te faço uma indicação de um livro muito bom.

Fechando-se novamente em sua bolha, foi interrompido por um bafo de curiosidade.

- 1984 de George Orwell.

O fato dele conseguir pronunciar com perfeição esse sobrenome causou mais espantou que o próprio conhecimento dele. A bolha se estorou.

Desligou seu Ipod e fechou o livro. Sabia que ia ter uma ótima conversa embalada por um forte cheiro de pinga e limão.

Não tinha lido esse livro ainda mas queria puxar papo.

- Muito bom mesmo esse livro. No estilo de Admirável Mundo Novo.

- Isso mesmo. Olha, não gostei muito da Revolução dos Bichos, mas esse escritor é revolucionário. Um gênio. Agora estou lendo outro livro muito bom. Tá lá embaixo do meu travesseiro. Teoria da Relatividade.

- …

- Albert Einstein. Um gênio. Revolucionou o mundo.

O que faltava em palavras era compensado pelo forte cheiro que exalava pelo ônibus.

- Uma vez perguntaram para Albert Einstein o que ele achava sobre o Ghandhi. Ele disse assim… “Esse homem vai ser o segundo Jesus Cristo”.

Veracidades a parte. Isso era genial.

- E esse cara foi um revolucionário. Mudou o mundo. Lutou contra o que ele achava errado. Ele quis mudar o mundo.

- Era advogado certo?

- Isso!!! – comprimentando com uma mão suja de pinga, limão e outras coisas – Muito bem lembrado. Um grande homem esse cara. Mas no Brasil não tem gente assim.

- Tem sim. É que brasileiro tem mania de se achar ruim em tudo.

- É verdade. Raul Seixas. Um gênio. Revolucionário. Foi casado 5 vezes. Era amigo de John Lennon. Esse cara era um gênio. Vou te contar uma história. Há uns tempos atrás eu trabalhava de letreiro. Sabe, fazia essas placas. Eu tava tomando uma lá na Bela Cintra, conhece? Perto da Augusta. Naquela época os bares vendiam bebida cedo, agora só depois das 10. Mas eu tava tomando uma lá e me deu vontade de tomar… como é que chama aquele que é suco de laranja e vodka?

- HI-FI.

- Isso. – Outro comprimento nojento – Falei, queria tomar um HI-FI. Porra, um cara de pijama, descalço vira pra mim e fala. Pode tomar, serve pra ele. Mas eu fiquei meio assim. Falei pro garçom, porra, nem conheço esse cara e ele vem me pagar bebida. Não vou tomar. Mas o cara me disse. Aceita ae, esse é o Raul Seixas, ele vai ficar chateado. Eu virei e disse assim mesmo. Raul eu nem te conheço mas já sou seu fã.

- Cê tá brincando.

- Falei. Falei mesmo. E eu fiquei uns 40 ou 50 minutos conversando com o Raul. Ele precisa ir embora porque ia aparecer um pessoal da faculdade lá. O cara foi casado 5 vezes acredita. Gente fínissima o Raul. Ele só tem um problema. O cara tem um puta bafo de vodka…

E nem esperou respirar para imendar a pérola da noite.

- … Pior que o meu até.

Se contorcendo de tanto rir no banco do ônibus, acreditava que ter saído de sua bolha já tinha válido a pena.

Mas como todo bêbado qualquer ele começou a explicar o motivo de tantos porres. E foi tudo por causa de um coração partido.

O interesse na conversa não mudou por causa do teor da mesma. Reclamou, chorou, mostrou-se esperançoso. Mas não deixava de falar.

E conforme o caminho acabava seu cheiro se tornava cada vez mais impregnante, tanto que resolveu saltar 3 pontos antes da sua chegada.

- Meu amigo, o papo foi ótimo mas preciso descer.

- Olha, você é um cara muito legal. Gostei muito de conversar com você. Meu nome é Sérgio.

- Sérgio muito prazer – As apresentações já tinham sido feitas.

Levantou-se, espremeu-se e continuou ouvindo.

- Porque você é um cara muito bacana. Acho que eu vou ligar pra ela sim. Meu filho é um puta cara. Gostei muito de conversar com você.

O ônibus parou e se lembrou de como era respirar novamente.

Satisfeito pela noite que tivera, sorriu de canto de boca desacreditando em tudo.

Mas tudo pode melhorar.

E pendurado na janela, ouviu seu amigo bêbado qualquer gritar.

- TCHAU AMIGÃO.

Gargalhou e se arrependeu de não ter anotado seu email.

Desista

Dezembro 2, 2008 by Ronas

“O maior de todos os projetos é tomar uma decisão.”

Marquês de Vauvenargues

Desistiu de entrar na faculdade. Desistiu de xavecar a garota mais bonita da festa. Desistiu de escrever um livro. Desistiu de voar. Desistiu até de sonhar.

Desistiu de ouvir música, de dançar, de sorrir.

Desistiu de trabalhar, de ter uma carreira, de ter dinheiro.

Mas ele nunca desistiu de desistir.

Sete Chaves

Novembro 26, 2008 by Ronas

“Nada mais comum do que julgar mal as coisas.”

Marco Túlio Cícero

Seus dedos corriam livremente pela máquina de escrever. A cada toque, uma nova sensação, um novo sentimento. Uma obra prima nascia alia.

Ao tirar o papel, lia cheio de orgulho a maestria que acabará de escrever.

E mais uma história ia para o lixo.

Procurava entender a razão porque seus textos sempre tinham um tom agressivo aos olhos. Engraçado que até mesmo sua busca já rendeu uma folha a mais na cesta de idéias.

“… desnudo de emoções, desbravava os céus. Sentia na pele o frio e o calor da noite. E mesmo sabendo que não poderia descrever tais sentimentos, fechou os olhos e sorriu… “

Lixo.

Mais uma história que viria ser história.

Tudo era lindo e obscuro. Belo e tenebroso.

Tudo era dialético.

E como ironia, existia e não.

Um mundo privado do mundo, que só ele e a faxineira conheciam.

Frutos do Ócio

Outubro 21, 2008 by Ronas

“Não há nenhum prazer em não ter nada para fazer: o divertido é ter milhares de coisa para fazer, e não fazer nada”

John W Raper

Precisou de tempo para se descobrir a farsa que era.

Na verdade, tempo foi a única coisa que não precisava.

Tinha todo ele na palma da mão.

E com o tempo e o lápis a disposição, descobriu essa revelação.

Bem, olhando para trás, percebe-se que sua vida não passava de uma ociosidade disfarçada.

Nunca levou nada muito a sério. Deixava na praia as idéias enquanto ia surfar. Mentira, ele não surfava, mas tinha vontade. De surfar, de fazer um mochilão, de aprender latim, de ganhar dinheiro. E com o lápis na mão, assistia seu seriado favorito.

Era óbvio que o tempo não ia perdoar. Passou junto de várias vontades. Ele crescia sem fazer nada.

Cozinhava bem, quando cozinhava, mas o seu maior hobby era ainda não fazer nada.

E contava seus sonhos com tanta convicção, que ninguém acreditava que não sairia do papel. Ou melhor do lápis.

Seguindo carreira em profissão de risco, onde se arrumam muitas desculpas para a malemolência, comeceu a sentir na pele e no lápis a sua falta de dedicação. A sua falta de ocupação para seu ócio. E seu próprio amigo chamava sua atenção. Ele também queria ter utilidade, porque é de conhecimento geral que o próprio ócio teme sua ociosidade.

Trabalhava até tarde, não por necessidade. Trabalhava até tarde para ter um tempo maior parado.

Não era um dia especial quando foi atropelado. Não era feriado, não chovia ou ventava. Era uma feira comum, como todas da semana. Mas foi o dia em que foi atropelado. E sua epifania não teve remorso em deixar ele desacordado no meio da rua.

A sensação de voar não era semelhante a de nenhum entorpecente que usava. Olhou para baixo e se viu realizando tudo aquilo que o lápis já sabia. Sentiu-se triste. Tentou se lembrar o que era o verdadeiro significado de epifania. Não conseguiu. Feito uma cena clássica de filme, foi ofuscado.

Não estava morto na hora que percebeu que devia olhar antes de atrevessar a rua. Mas ninguém que fica parado no meio de uma avenida, consegue contar a história depois.

Estendido no chão com o lápis quebrado entre os dedos, perdeu a reprise de um episódio que já tinha visto.

No silêncio do ponto

Outubro 20, 2008 by Ronas

“Na solidão, encontramos muitas vezes o que perdemos na conversa.”

Olívia Sabuco

Quase tropeçou nas escadas. Viu que o motorista já tinha entrado e o ônibus estava pronto para sair.

Com passos descompassados correu.

Nessas horas de atraso só nos resta infrigir a lei. Sentou no banco amarelo e relaxou. Mais um dia estava acabando e junto do corpo, o estresse iria descansar também.

Fones nos ouvidos, cabeça na janela. Mesmo preparado, a soneca custava a entrar no ônibus.

Refletindo, viu um mendigo dançando por entres o carros. Sentiu raiva. Ele iria atrasar o seu tão sagrado descanso na sexta. Sentiu raiva e chegou a querer descer do ônibus para empurrar o mendigo para o seu devido lugar.

Pensou de novo.

Pensou no desespero que leva alguém a dançar sujo na rua. Pensou no pouco de atenção que ele queria.

Pensou em como se sentia sujo.

Quis escrever sobre isso, mas desistiu. Sua mente estava perturbada.

Tentando dormir começou a reparar.

Nas ruas, nas pessoas, no ônibus.

E viu, sentado na frente do volante, uma peça que ninguém mais nota.

A ferramenta que nos leva embora, que nos guia.

Ele passa despercebido, mas claro, ele é só um motorista de ônibus.

Mas esse não era uma estátua qualquer. Ele queria ter vida. Queria ser notado.

E foi reparando que ele percebeu. No primeiro ponto, subiu um homem, normal como todos os homens dos contos.

O motorista olhou, mas olhou com um olhar de tristeza amarga. Olhou, e na esperança de receber um simples boa noite recebeu o silêncio.

Portas fechadas em movimento. Porque só lembramos de que aquele guia só tem vida nos momentos de tensão, como por exemplo, quando comete um humano erro de abrir as portas. Ou frear bruscamente para salvar a pele de todos os seus passageiros.

No próximo ponto começou a chover. Olhou novamente. Silênciou novamente.

Murmurou algum comentário que só ele escutou. Ninguém repara ultimamente no que as estátuas tem para nos dizer.

A sequência de fatos se repetiu até a chegada a hora do desembarque.

Sem olhares, sem boa noites, sem sorrisos ou obrigados, ele seguia todo dia o mesmo caminho, levando sempre as mesmas pessoas. Abrindo e fechando portas.

Deixando em cada ponto um pedaço da sua esperança.

Passou pela catraca, sem dizer nada.

Olhou para a outra figura e não se permitiu pensar em mais nada.

Estava tonto de tantos pensamentos.

Ficou irritado com uma situação de que era cúmplice e culpado.

Quase tropeçou nas escadas. Sentiu a brisa fria e cortante no seu rosto.

Quis escrever sobre isso, mas pensou que tudo isso era falta de sono, e que o motorista não se importava se as pessoas não percebiam sua presença lá. Se conformou, abaixou a cabeça, ascendeu um cigarro.

Cansado, foi para casa.

Outubro 16, 2008 by Ronas

“Aquele velho trapaceiro careca, o tempo”

Francis Bacon

Tenho medo do segundo. Não existe fator mais inconstante quanto o segundo.

Seria estupidez dizer que o segundo muda a cada segundo. Sim, esse é o óbvio. Mas não é estupidez maior deixar de pensar que o segundo muda a cada segundo.

Aquele segundo antes de começar uma briga, uma gritaria. Aquele momento chega ser até infinito num piscar de olhos, e nada fazemos. Nós temos o segundo antes.

O segundo antes da chuva cair, antes do copo cair. É apenas um segundo, que muda toda a história.

E ele, me aterroriza. O segundo antes do sorriso fechar e da lágrima escorrer. É esse o segundo que faz a diferença. Que cala e consente com o ódio. E conserta. Alivia.

É o segundo que separa o grito do silêncio. O prazer do descanso.

E rastejando por dentre de todas as ações e reações. Calado o segundo molda nosso destino.

E não consigo deixar de pensar que um segundo antes do escuro tem luz.

Um segundo antes da sede tem água.

Que um segundo antes da morte, tem vida.

Sempre que der tempo

Outubro 7, 2008 by Ronas

“As pessoas que não fazem nada nunca têm tempo.”

madame Rolland

De tanto olhar para o relógio ficou tonto.  Já não sabia há quanto tempo esperava para ser atendido.

Pode entrar Seu Pedro, disse a secretária.

Fez sua típica cara ranzinza para mostrar que desaprovara a espera. De nada ia adiantar afinal todos estavam acostumados.

Sentou sem ser convidado e deixou no ar a mão do médico.

Então Senhor Pedro, o que te traz novamente aqui?

Preciso de um remédio para ficar acordado.

Mas você sente muita sonolência? Adormece durante o dia?

Não.

Então porque você quer um remédio?

Porque não tenho tempo para dormir. Apenas me dê logo esse remédio preu ir embora, se não fosse a demora para ser atendido, teria um pouco mais de tempo e paciência para ficar aqui sendo enrolado pelo senhor doutor. Então assine logo esse papel, preciso sair.

Fechou a porta com força. Sem prescrição médica não conseguiria se manter acordado durante toda a semana.

Engoliu um café fervendo enquanto dirigia. Já se acostumou a não sentir o gosto ou o calor das coisas que colocava na boca. Ele precisava correr.

Saiu gritando com o elevador que insistentemente parou em todos 17 andares do prédio. Era óbvio que tinha feito isso para irritar ainda mais o Seu Pedro.

Seu único filho o cumprimentou. Não respondeu.

Contador veterano, não teve tempo para criar o filho. E mesmo depois de 30 anos se pergunta como teve tempo para faze-lo.  Nem como teve tempo de conhecer sua ex cônjuge. Bom, nem chegou a conhecê-la de verdade. Não sabia do que gostova, sua cor favorita, sua música favorita.

Pensando nisso se assustou. Tirou 1 seg do seu precioso relógio para pensar. Qual era a sua cor favorita? Sua música? Sua viagem? Sua comida, sua novela, suas mulheres?

Passado o segundo, tomou conta da situação.

Agradeceu pelo café preto que estava na sua barriga. Com ele ficou até as 19 horas, onde a necessidade e as broncas do filho falavam mais alto. Concentrado nas planilhas mastigava nacos daquilo que o filho trouxera. Não sabia o que era. Não tinha tempo para sequer perguntar.

Boa noite Pai. Seria bom o senhor sair um pouco. Vem jantar em casa amanhã se quiser.

Tá, tá. Fecha a porta pro barulho não me atrapalhar mais.

Continuou até o sol dar o ar das graças. Este sempre arrumava o tempo que fosse preciso para aparecer. Sem reclamar, acordava todos os dias no mesmo horário.

Conseguiu um tempo para bocejar. Sentiu fraqueza e engoliu um café e um pão de queijo velho.

Sem tempo para comer, pensar, sorrir, agia feito uma máquina, mas até estas arrumam tempo para deitar.

Fechou os olhos por um instante para bocejar e abriu os mesmos na segunda feira no hospital.

Seu filho não estava lá. Talvez não tivesse arrumado tempo, pensou sozinho.

E com fios e tubos entrando por todo seu corpo, arrumou tempo para sentir o esgotamento.

Olho para o céu e lembrou daquele cartaz da cafeteria que adorava.

Arrumou tempo para chorar, para sonhar novamente.

Quando a enfermeira entrou no quarto, ele reclamou.

Precisava ir trabalhar, não podia perder tempo esperando a alta. Sangue escorria pelos braços a cada agulha que ele arrancava. Ao firmar os pés no chão caiu. Piscou novamente.

Seu segundo infarto foi mais leve do que o outro, mas preocupante igual.

Queria sair, mas dessa vez encontrou tempo para melhorar. Esse terror que passou conseguiu mudar sua cabeça.

E ao sair pela porta da frente do hospital disse para o seu filho.

Estou indo viajar. Vou conhecer a Europa. Vou, assim que tiver um tempo.

Meu presente para vocês

Outubro 2, 2008 by Ronas

“Quem melhor conhece a verdade é mais capaz de mentir.”

Sócrates

Estava ansioso demais.

As festividades estavam chegando e ele duro de sentimentos.

Tinha amigos pela pessoa que ele inventava ser. E vamos encarar os fatos, ele era uma péssima pessoa. Mentia como a péssima pessoa que era.

Contador de histórias profissional. Aprendeu tudo com seu pai, um alcoólatra em ascendência que precisava ganhar a vida de algum jeito. Sua mãe só conheceu pelos contos e fábulas que eram inventadas. Ora glorificada pela vó, ora prostituida pelos tios. Orava para um dia ter a chance de conhecê-la de verdade.

Foi criado entre mentiras de vida. Só lhe restava uma vida de mentiras.

Acabam aqui as verdades dessa história. Para conhecer a fundo nosso personagem seria preciso mudar o começo de sua vida, e tornar real essa trama embaralhada de sentidos roubados.

Logo nos primeiros passos aprendeu a sentir vergonha pelos erros dos outros. Mentia inocentemente fugindo de dedos e olhos maldosos.

Por crianças sem dó foi atacado no lixo de brincadeira e no lixo encontrou sua personalidade.

Deixou por lá o seu caráter. Para viver como ele, ter caráter é apenas um peso extra nas costas.

Ao longo de suas histórias, conquistou amigos. Muitos amigos. Não os amava. Sentia que os possuía. E quando eles precisavam, precisamente ele os ajudava, com todo o esforço desumano que ele tinha. Ele não sentia pena, mas mentia que sim.

Preguiçoso de criação, não tardou para arrumar emprego. Odiava ter que trabalhar, mas enganava a todos sendo consecutivamente eleito o funcionário do mês. Nessa epóca, passou pela sua cabeça tornar a ser uma pessoa sincera, mas sentiu na boca do estomago o vômito quando lembrou das crianças atacando verdades e restos de comida na sua cara. Verdades que nem eram dele.

Quem mente no trabalho, mente em casa.

Não era inteligente e escondendo isso de todo o resto de familia que tinha, ingressou na universidade. Não estava feliz mas sorria.

Tomou posse de muito mais amigos nessa epóca. E como por engano, se graduou com méritos.

E casou com uma mulher que não amava.

Teve filhos com quem não queria brincar.

Estava ansioso demais.

Nessa epóca do ano o relógio tinha pressa.

A campainha tocou.

Olhou para trás e viu o rastro de sujeira e mentiras que contou. Refletiu. Como era possível alguém tão sem escrúpulos ter chegado tão longe. Era sincero seu questionamento, afinal, nesses momentos de solidão não temos como escapar da verdade. Aquela boa pessoa. Trabalhadora. Inteligente. Romântica. Nada era dele. Nada era ele. Eram mentiras criadas para esconder um passado, que era passado ao seu.

A campainha tocou.

E com um sorriso falso acolheu a todos aqueles a quem odiava.

Iria passar um péssimo Natal na presença de todos. E ninguém iria perceber.

Distribuiu mentiras embrulhadas. Enganos secretos. E contou sua história.

Sua verdadeira história.

E dentre risos e chacotas ele percebeu que a sua maior mentira, foi ter contado a verdade.