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“Bebendo-se um pouco de vinho a inteligência se rejuvenesce.”
Voltaire
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Terminou seu job, seu expediente. Terminava a semana e mais um ano. Terminava de ler seu livro e de escutar uma música que não se lembra. E quando terminava seu caminho para casa começou essa história.
Fechado em sua bolha só pensava em chegar logo no final da sua rotina diária quando sentou ao seu lado um bêbado qualquer. E como todo bêbado qualquer, fedia a limão.
Apesar de ser um cheiro insuportável, preferiu garantir seu lugar sentado, no fim das contas estava cansado, e pensou que enquanto ele mantesse sua boca fechada, estaria tudo bem.
Mas ele abriu a boca.
- Racio… ma.. pub….
Tirou um fone.
- O que?
- Raciocinio Criativo na Publicidade. Parece ser bom esse livro. Bem interessante. Olha, se você anotar o meu email te faço uma indicação de um livro muito bom.
Fechando-se novamente em sua bolha, foi interrompido por um bafo de curiosidade.
- 1984 de George Orwell.
O fato dele conseguir pronunciar com perfeição esse sobrenome causou mais espantou que o próprio conhecimento dele. A bolha se estorou.
Desligou seu Ipod e fechou o livro. Sabia que ia ter uma ótima conversa embalada por um forte cheiro de pinga e limão.
Não tinha lido esse livro ainda mas queria puxar papo.
- Muito bom mesmo esse livro. No estilo de Admirável Mundo Novo.
- Isso mesmo. Olha, não gostei muito da Revolução dos Bichos, mas esse escritor é revolucionário. Um gênio. Agora estou lendo outro livro muito bom. Tá lá embaixo do meu travesseiro. Teoria da Relatividade.
- …
- Albert Einstein. Um gênio. Revolucionou o mundo.
O que faltava em palavras era compensado pelo forte cheiro que exalava pelo ônibus.
- Uma vez perguntaram para Albert Einstein o que ele achava sobre o Ghandhi. Ele disse assim… “Esse homem vai ser o segundo Jesus Cristo”.
Veracidades a parte. Isso era genial.
- E esse cara foi um revolucionário. Mudou o mundo. Lutou contra o que ele achava errado. Ele quis mudar o mundo.
- Era advogado certo?
- Isso!!! – comprimentando com uma mão suja de pinga, limão e outras coisas – Muito bem lembrado. Um grande homem esse cara. Mas no Brasil não tem gente assim.
- Tem sim. É que brasileiro tem mania de se achar ruim em tudo.
- É verdade. Raul Seixas. Um gênio. Revolucionário. Foi casado 5 vezes. Era amigo de John Lennon. Esse cara era um gênio. Vou te contar uma história. Há uns tempos atrás eu trabalhava de letreiro. Sabe, fazia essas placas. Eu tava tomando uma lá na Bela Cintra, conhece? Perto da Augusta. Naquela época os bares vendiam bebida cedo, agora só depois das 10. Mas eu tava tomando uma lá e me deu vontade de tomar… como é que chama aquele que é suco de laranja e vodka?
- HI-FI.
- Isso. – Outro comprimento nojento – Falei, queria tomar um HI-FI. Porra, um cara de pijama, descalço vira pra mim e fala. Pode tomar, serve pra ele. Mas eu fiquei meio assim. Falei pro garçom, porra, nem conheço esse cara e ele vem me pagar bebida. Não vou tomar. Mas o cara me disse. Aceita ae, esse é o Raul Seixas, ele vai ficar chateado. Eu virei e disse assim mesmo. Raul eu nem te conheço mas já sou seu fã.
- Cê tá brincando.
- Falei. Falei mesmo. E eu fiquei uns 40 ou 50 minutos conversando com o Raul. Ele precisa ir embora porque ia aparecer um pessoal da faculdade lá. O cara foi casado 5 vezes acredita. Gente fínissima o Raul. Ele só tem um problema. O cara tem um puta bafo de vodka…
E nem esperou respirar para imendar a pérola da noite.
- … Pior que o meu até.
Se contorcendo de tanto rir no banco do ônibus, acreditava que ter saído de sua bolha já tinha válido a pena.
Mas como todo bêbado qualquer ele começou a explicar o motivo de tantos porres. E foi tudo por causa de um coração partido.
O interesse na conversa não mudou por causa do teor da mesma. Reclamou, chorou, mostrou-se esperançoso. Mas não deixava de falar.
E conforme o caminho acabava seu cheiro se tornava cada vez mais impregnante, tanto que resolveu saltar 3 pontos antes da sua chegada.
- Meu amigo, o papo foi ótimo mas preciso descer.
- Olha, você é um cara muito legal. Gostei muito de conversar com você. Meu nome é Sérgio.
- Sérgio muito prazer – As apresentações já tinham sido feitas.
Levantou-se, espremeu-se e continuou ouvindo.
- Porque você é um cara muito bacana. Acho que eu vou ligar pra ela sim. Meu filho é um puta cara. Gostei muito de conversar com você.
O ônibus parou e se lembrou de como era respirar novamente.
Satisfeito pela noite que tivera, sorriu de canto de boca desacreditando em tudo.
Mas tudo pode melhorar.
E pendurado na janela, ouviu seu amigo bêbado qualquer gritar.
- TCHAU AMIGÃO.
Gargalhou e se arrependeu de não ter anotado seu email.