Quantos beijos foram dados naqueles três pontos que ela mostrava em sua pele.
O primeiro foi o ponto final que ela exibia em sua boca, recusando acreditar que nossos corpos se encontrariam.
Sua gramática mentia.
Do final saiu o beijo onomatopéico. Seus suspiros não foram possíveis de ser traduzidos para a língua portuguesa e era com a língua que escrevia nas linhas curvas do seu corpo.
Mãos amassavam o papel que lutava contra o nascimento de mais uma história. Seus poros exalavam a toxina para ortografia, fazendo desconexas as palavras que eram escritas.
Rabiscando com saliva, cheguei à segunda pinta que marcava a pausa em seu peito. A respiração ofegante inspirava o inicio do segundo ato que foi desenhado com voracidade.
Escrevendo, pintando, desejando.
Continuando a produzir na pele o fogo que consumia o intimo de nós dois.
Caem as capas do livro. Páginas nuas são expostas tímidas e sem vergonhas. A vergonha era bela. A vergonha era faísca.
A censura não conseguiu entender como pontos e textos se encontravam ao acaso brotando paixão pelos aromas descritos.
Surreal, romantismo, dadaísmo. As escolas se misturavam com o paladar daquela história proibida.
Sua razão gritou e tornou o lado direito fraco.
A interrogação interrompeu a fonética. A dúvida fez das costas a última lembrança.
Estava lá a despedida.
O último ponto que não finalizou a história.
Estava lá o ponto que abriu o mistério.
Sem saber se era o fim, encerrei minhas palavras naquelas pintas que me encantaram.
Um sorriso branco, discreto e safado que fazia qualquer quarentão como eu cair aos seus pés.
Quem dera fosse isso a razão da minha completa perdição. Quem dera fosse apenas o branco que contrastava o batom na sua boca.
Faltava pouco para eu descobrir a dor lasciva que entraria na minha carne como uma navalha de excitação.
- Oi.
Silêncio e um olhar sarcástico desprezaram como resposta a timidez. Instigaram a ficar.
Gelo e auto-estima quebrados, consegui me sentar junto a ela.
Não dizia nada como se fizesse questão que a observasse em cada detalhe. Mandava em mim sem palavras.
Pele branca envolvia uma estrada sinuosa por onde meus dedos ansiavam viajar, traçando sua forma no ar que nos separava. Olhos negros proibidos me fizeram menino. Me fizeram perdido. Sua boca saltava do rosto buscando me tentar em cada leve mordida que recebia de seus dentes. Ia me devorar.
Menina feita de pecado, suor e tentação. Pontos fortes de desejo espalhados pelo corpo, nunca me dizendo que aquele era o final.
Em prazer ofegante me perdi encontrando na ponta do seus dedos a cor que estamparia nossa paixão.
Roupas caiam com ferocidade. A parede pressionada sentia o calor da cena que acontecia. O suor escorria por sua pele tentando alcançar a velocidade das minhas mãos.
Foi quando cravei minha boca no seu pescoço que senti o gozo do flagelo na minha pele.
Menina branca de pintas negras.
Pintava nas feridas abertas em minhas costas suas unhas de vermelho.
Quem poderia acreditar que de uma poesia abandonada nasceria uma história de amor.
Traços, rabiscos e idéias tortas foram deixadas no chão de uma via qualquer, para que o tempo desmanchasse a falta de criação de um ocioso.
Pela tinta preta e descartada passou o pó. Passaram pessoas, dias e pegadas sem que nada mudasse a tristeza daquela cena.
O próprio vento tentou animar os versos pobres em vão, sacudindo-os de um lado para o outro.
Nada parecia mudar aquela página.
O tempo fechou e do céu a primeira troca de olhares aconteceu.
Um dia cinza e abafado com um som atemorizante de fundo. O cenário perfeito para o encontro.
Ela descia suavemente tocando suas letras como se buscando naquelas palavras conforto para sua solidão.
Tocava lentamente cada pedaço abandonado de seu corpo, curando as feridas que o tempo deixou. Mesmo de forma frágil, agia com vigor nos rabiscos que foram largados, manchando os erros de um autor fracasso.
Nesse contato apaixonante, palavras que já não faziam sentido transformaram-se em borrões e criando uma nova história.
Ela caiu, breve e com opulência. Caiu e foi embora para por outra história se apaixonar, deixando não chão, não mais erros abandonados.
O que restou foi notado por todos que passaram por ali.
O que restou foram as manchas de um lindo romance.
Triste, incompreendida, chorava a noite para que poucos pudessem ouvir.
Justo ela que um dia encantará, alimentará a todos que hoje a desprezam e debocham.
Mesmo maltratada, voltava sempre na mesma época para a cidade que a criará desde pequena. Já era bem vinda em casa.
Desprezou uma vez aqueles que não vêem sua importância e bastou a sede e o pó acumularem para que clamassem com rojões e velas sua volta.
Os tempos são outros. As importâncias mudaram.
Hoje se mata a sede com alumínio e arrasta o pó para debaixo do tapete.
E aquela, que alimentou os campos e encheu nossas banheiras, já é vista com desdém. Hoje ela só atrapalha o fluxo sanguinário do caos e não lava mais a alma de ninguém.
Fora a sede que me levara até barraca de um simples vendedor de coco. A sede e música que transbordava pelas portas abertas daquela lojinha discreta, que mais parecia um boteco de fim de mundo.
Era tarde da noite de uma noite quente de inverno, em uma paisagem abençoada pelo criador.
Revigorado pelo tônico natural e por Whitesnake, que acabara de começar o solo de guitarra mais apaixonado que a terra do forró já escutou, ouvi uma frase que cortou meus pensamentos.
- Nunca deixe de se entregar ao amor.
Ainda estava meio tonto pelo choque da água de coco com aquelas palavras quando repetiu.
- Nunca deixe de se entregar ao amor.
A partir daí, conto a sua história.
“Nunca tive nada de excepcional. Não era o mais inteligente da escola, afinal nunca fui a uma aula. Não construí nada grandioso. Não pinto, não escrevo e não sei cantar. A minha única qualidade era que eu sabia castigar de uma mulher. Bastava meia garrafa de pinga para eu me tornar o monstro que assustava suas noites de infância. Isso sim eu fazia bem. Ser o demônio. Mas hoje eu sou diferente. Estou casado há 25 anos com uma mulher que amo e a única coisa que levanto hoje é para fazê-la feliz todas as noites. Não bebo mais, não fumo e não jogo. Só trabalho e amo. Por isso que lhe digo, nunca deixe se entregar ao amor. Foi graças a essa música que me apaixonei de verdade e desde a primeira vez que a ouvi, amei minha patroa como a amo hoje. Nunca deixe de se entregar ao amor”
O que começou com uma volta em busca de cura para a sede física, terminou saciando a vontade da alma.
Desde o dia que conheci um simples vendedor de água de coco minha vida mudou. Abri os olhos para uma verdade da natureza. Abri o peito para o que a vida já havia me dado.
Quando o sol batia em sua janela, ele saia mais uma vez cuidar de seu jardim de cinzas brancas.
Uma vida pesante fazendo com que sua angustia não morresse esquecida por todos aqueles que passaram por seu caminho.
Uma vida fazendo cinzas de pequenas ações.
Para ele nada nunca passou batido. Tudo era motivo. Tudo era suficientemente grande para ele se importar.
Tudo fazia parte das cinzas que ele juntava atrás da sua casa.
Tudo era morto.
A imagem de família, de amigos, de certo, de errado. De compaixão. Era morto por dentro como seu jardim de cinzas brancas.
Enquanto alisava con brio dunas intermináveis de poeira branca, assoviava versos soltos como se faz durante uma paixão. Como se aqueles minúsculos pedaços de lembranças e misérias pudessem trazer calor para o inverno que construiu ao seu redor.
Enchia o espaço com desenhos e formas abstratas por onde varria, depois entrava em casa para continuar o serviço.
Recolhia flores das redondezas para queimá-las no fogo mais forte que conseguisse sustentar. Queimava como se o calor fizesse diferença. Queimava uma para cada gesto ou atitude que tivesse o prejudicado.
Nunca teve coragem de enfrentar seus carrascos, por mais inocentes que eles fossem, por isso se vingava nas flores, transformando em cinza o colorido da natureza.
Era final de tarde quando a brisa começou assoprar e entrou sorrateira pela janela que insistia em ser esquecida aberta.
Calmo e affettuoso, invadiu aquele espaço, sem pedir licença ou esperar as cortinas se abrirem.
A vela queimando em cima da escrivaninha criava o clima para o espetáculo que estava para acontecer e foi com ela que a primeira valsa se deu.
Levando em compasso a chama que agora crescia e iluminava todo o aposento, criando uma legião de admiradores sombrios nas paredes. Levando em movimentos nunca alcançados pelo homem. Acolhendo em uma melodia discreta.
A vela apagou, mas o fogo agora estava com o vento, que levantou as primeiras folhas amareladas que caiam nessa estação.
Aquela pilha relutou aos primeiros passos. Não queria sair do monte do esquecimento junto das demais folhas rabiscadas e rejeitadas.
Até que um verso ganhou vida. Mésto como era, quis mudar o tempo da composição e fez vento soprar mais forte e constante.
Quem dera luzes existissem para que olhos vissem o que se deu naquele quarto, quando o vento encontrou um verso caído e bailou em silêncio pela madrugada.
Seduzidas pelo seu condutor, outras páginas rasgadas se juntaram a essa dança, montando no ar o trabalho destruído de um poeta frustrado.
Beijando-se, amando-se, encheram o ambiente com graça e pesar e deram som à calada da noite.
Deram vida às primeiras folhas caídas do outono de um escritor.
Estava quente mas não fazia sol. Já não fazia sol há tempos.
Junto das nuvens, saiu de novo para a mesma rotina.
Um suspiro.
Não sentia prazer na vida diurna.
Mas quando a lua brilhava a pino sob as vielas por onde andava, algo acontecia.
Sentia-se agitato.
Sentia-se poderoso.
Começava a caça.
Prende o ar.
Farejando com olhos atentos por entre frestas e cortinas. O pulso acelerando conforte seus pés invadiam um local sagrado. Vendo em seu intimo qual seria seu próximo quadro.
Olhos se cruzam e com medo começam a fugir. Era virgem no que estava acontecendo.
Prende o ar.
Era o desespero, a respiração ofegante que o atraia. Era o vermelho.
Vermelho sangue.
Arrítmico.
Não queria um jogo fácil. Ela precisava debater. Ela precisava ter medo daquelas órbitas mortas e sedentas por vermelho.
Sem ritmo dançaram deixando apenas passos marcados no chão de terra por onde ele a encurralou.
Via-se em seus olhos furiosos o vicio no rubro sangue.
Via-se o peito bufando em excitação.
Era mais uma capturada.
Um suspiro.
Primeiro a desnudou. Atada não conseguiu escapar do banho fúnebre que ele preparou. Gostava de telas brancas e limpas antes de começar a compor.
Penteando lentamente seus cabelos enquanto acariciava tranquillamente seus contornos.
Um suspiro final.
Pintando com vermelho e navalha pelo corpo semimorto de sua presa. Pintando com raiva. Pintava com amor.
Deslizando o metal ao som de agonia e jorros vermelhos de dor, seu traço marcato pintava paisagens.
Desenhando pela carne con fouco, con brio, con bravura para ver em vermelho, rostos estranhos nascerem.
Traçava um doentio mundo que ele enxergava. Pintava sua loucura em vermelho.
Em vermelho assistindo sua obra-prima morendo.
Sentindo seu verão morrendo.
Um lamento.
O arrependimento chegava sempre na mesma hora que enterrava sua criação, e via com os olhos vermelhos de lágrimas, mais um dia quente sem sol chegar.
Castigava seu corpo com as mesma ferramentas que pintava.
Castigava sua alma com mais um dia de rotina, aguardando a lua que o inspirava.
Já sabia o que estava para acontecer.
Um suspiro.
Correndo, caçando, pintando.
Foi assim que viveu nas sombras de um dia quente.
De um dia que não saiu o sol mas ainda assim, um dia vermelho.