Quando conheci deus um cachorro latia na rua.
Na verdade eram vários que tentavam acompanhar o samba que acabará de começar na laje de casa.
O ritmo comemorava com um clima de vitória meu quarto aniversário e nessa data, ela escolheu me presentear com um milagre.
Vamos voltar para o meu nascimento, quando meus pais e familiares receberam a notícia de que, devido a uma paralisia pré-natal, eu nunca poderia andar. Mas ao invés de morrer com essa revelação, eles tiveram fé. Não acreditaram nas palavras daquele homem branco que não me sentiu por dentro durante nove meses.
Da maternidade fui para os rios vermelhos de Iemanjá ser benzido. De sol a sol os vi ofertarem a todos os santos e orixás, para que por uma vez eu pudesse sentir a imensidão da terra no meu calcanhar.
Tiveram fé em toda bula e santinho que pudesse trazer alguma melhora e assim, quatro anos se passaram para esse samba começar.
Não consigo lembrar as coisas que vivi, como lembra a vizinha que não vi crescer ou um primo que não vi subi na árvore, mas lembro daqueles olhos. Sambaram até cruzar com os meus, só que assim que me encontraram, vieram me conhecer.
Apesar de nunca a ter visto antes eu sabia que já fomos um em algum lugar. Aquela presença divina criava um silêncio interior em meio ao cavaco que começa a chorar. Por entre pingos de cerveja e migalhas de pão, ela espalhou paz quando correu os dedos em meus cabelos.
Como se acorda de um sonho, tive minha atenção jogada para uns traços estranhos que marcavam seu braço e com os dedos, apontei para aquela curiosidade que não ia me deixar dormir.
A resposta ela deu com um sussurro.
Deus.
Era ela.
Ansiei pela primeira vez por pernas boas quando a vi se afastar e em meio a movimentos bruscos consegui um corpo que me sustentasse. Tentei dizer que aquele sorriso, aquela pele, que nos traços e no olhar estava deus e que agora ela partia.
Sem fazer entender que desejava seguir a luz, fiz força para ser colocado no chão e vencendo os limites da crença, me sustentei.
O samba parou mas os cachorros continuaram a latir para que eu desse um primeiro passo em direção a vida.
Um passo antes de desabar no cimento.
Ainda não corro ou tão pouco falo mas tenho sempre em mim o dia que deus me ensinou a andar. Torço e rezo mais para sentir de novo essa sensação de liberdade que todos que se erguem ignoram e se ela quiser, vai ser de pé que o próximo samba eu vou dançar.