Se ela quiser

fevereiro 3, 2010 por Daniel

Quando conheci deus um cachorro latia na rua.

Na verdade eram vários que tentavam acompanhar o samba que acabará de começar na laje de casa.

O ritmo comemorava com um clima de vitória meu quarto aniversário e nessa data, ela escolheu me presentear com um milagre.

Vamos voltar para o meu nascimento, quando meus pais e familiares receberam a notícia de que, devido a uma paralisia pré-natal, eu nunca poderia andar. Mas ao invés de morrer com essa revelação, eles tiveram fé. Não acreditaram nas palavras daquele homem branco que não me sentiu por dentro durante nove meses.

Da maternidade fui para os rios vermelhos de Iemanjá ser benzido. De sol a sol os vi ofertarem a todos os santos e orixás, para que por uma vez eu pudesse sentir a imensidão da terra no meu calcanhar.

Tiveram fé em toda bula e santinho que pudesse trazer alguma melhora e assim, quatro anos se passaram para esse samba começar.

Não consigo lembrar as coisas que vivi, como lembra a vizinha que não vi crescer ou um primo que não vi subi na árvore, mas lembro daqueles olhos. Sambaram até cruzar com os meus, só que assim que me encontraram, vieram me conhecer.

Apesar de nunca a ter visto antes eu sabia que já fomos um em algum lugar. Aquela presença divina criava um silêncio interior em meio ao cavaco que começa a chorar. Por entre pingos de cerveja e migalhas de pão, ela espalhou paz quando correu os dedos em meus cabelos.

Como se acorda de um sonho, tive minha atenção jogada para uns traços estranhos que marcavam seu braço e com os dedos, apontei para aquela curiosidade que não ia me deixar dormir.

A resposta ela deu com um sussurro.

Deus.

Era ela.

Ansiei pela primeira vez por pernas boas quando a vi se afastar e em meio a movimentos bruscos consegui um corpo que me sustentasse. Tentei dizer que aquele sorriso, aquela pele, que nos traços e no olhar estava deus e que agora ela partia.

Sem fazer entender que desejava seguir a luz, fiz força para ser colocado no chão e vencendo os limites da crença, me sustentei.

O samba parou mas os cachorros continuaram a latir para que eu desse um primeiro passo em direção a vida.

Um passo antes de desabar no cimento.

Ainda não corro ou tão pouco falo mas tenho sempre em mim o dia que deus me ensinou a andar. Torço e rezo mais para sentir de novo essa sensação de liberdade que todos que se erguem ignoram e se ela quiser, vai ser de pé que o próximo samba eu vou dançar.

A Terra Chorou

julho 29, 2009 por Daniel

Hoje a Terra chorou.

Chorou copiosamente o dia todo. Um choro sentido, sofrido e calado. Não chorou para lavar ninguém. Não chorou para trazer a vida, nem tão pouco para trazer amor.

Hoje a terra chorou.

Hoje a terra chorou como se chora na derrota e na fragilidade. Uma lágrima fria e pesada que escorreu pela janela durante a tarde.

Sem soluços. Sem desespero.

Hoje a terra chorou.

Chorou como se chorasse toda a angústia daqueles que não sabem chorar.

Por mim, hoje a terra chorou.

Olá PORRA

março 16, 2009 por Daniel

Eu juro que queria ser uma pessoa normal, sorrir, ser simpático e todas essas viadagens que caracterizam um ser humano sociável.

Não sou e ponto. A culpa não é minha. É da porra da mariposa.

Óbvio que você, leitor assíduo e desinformado, vai perguntar.

- Que porra de mariposa?

Não importa. São todas do mal. As bunituchinhas/rosinhas/inofensivinhas, as pretas, as brancas, as que se escondem no meio do mato só esperando pra dar o bote (não, não é cobra caralho).

Só que a desse insight é especial. Tem até nome.

PORRA.

Bonito, não é mesmo?

Bom, tudo começa assim: não bastando eu mal ter dormido na noite anterior e estar cheio de tarefas e pouco prazo, me deparo com um desses demônios que se disfarçam em corpos alienigenas.

Marrom, peluda e parada na parede.

Pensei.

- Pronto, Tony Ramos voltou da praia e entrou pela janela. Era o que faltava.

Infelizmente estava errado.

Já faz 5 horas que ela se encontra parada no mesmo lugar. Me dando as costas. Me ignorando. Só esperando o momento oportuno para um voo raso e certeiro. Para me dar um susto e me fazer parecer uma menininha alucinada.

Suor desce pelo meu rosto.

- Liga o ar então.

- Já não disse que é a porra da mariposa?

Começo a pensar e vejo que existe algo em comum com toda a angústia, a miséria, o ódio, o cheiro azedo nos bêbados. Tudo é culpa da porra da mariposa.

- A mariposa PORRA?

- Não. A porra de todas as mariposas.

Foi então que percebi. Elas são o mal no mundo.

Será que só eu vejo isso?

Mensagem aos Pais

janeiro 26, 2009 por Daniel

Texto velho que escrevi para o álbum da formatura. Achei ele e quis postar.

“A Paciência é o remédio de todas as dores.”

Publilius Syrius

Logo que eles pensam na gente, pela primeira vez, eles esperam.

Nove meses esperando. Imaginando. Curtindo.

Aí nascemos, e eles esperam a gente andar. Falar. Dar trabalho.

Mas eles sempre esperam.

Eles esperam que cresçamos saudáveis, que sejamos inteligentes.

Eles aproveitam cada minuto da nossa infância, sempre esperando o primeiro dia de aula.

A primeira prova na escola, o primeiro amor.

Eles esperam.

Esperam que a gente tome um rumo certo na vida, que nos afastemos de problemas.

Que tenhamos bons amigos, boas influências.

Eles esperam a gente crescer, e a gente cresce.

Esperam que tenhamos consciência, que voltemos logo para casa.

E sempre no mesmo lugar do sofá, eles esperam.

Esperam a gente ficar melhor, depois de uma noite de exageros.

Esperam a ressaca passar para poder brigar com a gente.

E esperam que seja a última vez.

E nesse tempo, a gente cresce mais.

Trabalhamos, nos formamos, nos “ajeitamos”.

E por 4 anos, eles esperam o dia em que talvez, eles mais desejem que não chegue.

Nós crescemos, e nós partimos.

Mas eles esperam para um almoço de domingo.

Para um telefonema no meio da semana.

Para um “EU TE AMO” que muitas vezes, só fica entalado na garganta.

Para que essa saudade que dói passe logo.

E sempre, desde o primeiro dia.

Eles esperam.

Entre cachaça e limão

janeiro 5, 2009 por Daniel

“Bebendo-se um pouco de vinho a inteligência se rejuvenesce.”

Voltaire

Terminou seu job, seu expediente. Terminava a semana e mais um ano. Terminava de ler seu livro e de escutar uma música que não se lembra. E quando terminava seu caminho para casa começou essa história.

Fechado em sua bolha só pensava em chegar logo no final da sua rotina diária quando sentou ao seu lado um bêbado qualquer. E como todo bêbado qualquer, fedia a limão.

Apesar de ser um cheiro insuportável, preferiu garantir seu lugar sentado, no fim das contas estava cansado, e pensou que enquanto ele mantesse sua boca fechada, estaria tudo bem.

Mas ele abriu a boca.

- Racio… ma.. pub….

Tirou um fone.

- O que?

- Raciocinio Criativo na Publicidade. Parece ser bom esse livro. Bem interessante. Olha, se você anotar o meu email te faço uma indicação de um livro muito bom.

Fechando-se novamente em sua bolha, foi interrompido por um bafo de curiosidade.

- 1984 de George Orwell.

O fato dele conseguir pronunciar com perfeição esse sobrenome causou mais espantou que o próprio conhecimento dele. A bolha se estorou.

Desligou seu Ipod e fechou o livro. Sabia que ia ter uma ótima conversa embalada por um forte cheiro de pinga e limão.

Não tinha lido esse livro ainda mas queria puxar papo.

- Muito bom mesmo esse livro. No estilo de Admirável Mundo Novo.

- Isso mesmo. Olha, não gostei muito da Revolução dos Bichos, mas esse escritor é revolucionário. Um gênio. Agora estou lendo outro livro muito bom. Tá lá embaixo do meu travesseiro. Teoria da Relatividade.

- …

- Albert Einstein. Um gênio. Revolucionou o mundo.

O que faltava em palavras era compensado pelo forte cheiro que exalava pelo ônibus.

- Uma vez perguntaram para Albert Einstein o que ele achava sobre o Ghandhi. Ele disse assim… “Esse homem vai ser o segundo Jesus Cristo”.

Veracidades a parte. Isso era genial.

- E esse cara foi um revolucionário. Mudou o mundo. Lutou contra o que ele achava errado. Ele quis mudar o mundo.

- Era advogado certo?

- Isso!!! – comprimentando com uma mão suja de pinga, limão e outras coisas – Muito bem lembrado. Um grande homem esse cara. Mas no Brasil não tem gente assim.

- Tem sim. É que brasileiro tem mania de se achar ruim em tudo.

- É verdade. Raul Seixas. Um gênio. Revolucionário. Foi casado 5 vezes. Era amigo de John Lennon. Esse cara era um gênio. Vou te contar uma história. Há uns tempos atrás eu trabalhava de letreiro. Sabe, fazia essas placas. Eu tava tomando uma lá na Bela Cintra, conhece? Perto da Augusta. Naquela época os bares vendiam bebida cedo, agora só depois das 10. Mas eu tava tomando uma lá e me deu vontade de tomar… como é que chama aquele que é suco de laranja e vodka?

- HI-FI.

- Isso. – Outro comprimento nojento – Falei, queria tomar um HI-FI. Porra, um cara de pijama, descalço vira pra mim e fala. Pode tomar, serve pra ele. Mas eu fiquei meio assim. Falei pro garçom, porra, nem conheço esse cara e ele vem me pagar bebida. Não vou tomar. Mas o cara me disse. Aceita ae, esse é o Raul Seixas, ele vai ficar chateado. Eu virei e disse assim mesmo. Raul eu nem te conheço mas já sou seu fã.

- Cê tá brincando.

- Falei. Falei mesmo. E eu fiquei uns 40 ou 50 minutos conversando com o Raul. Ele precisa ir embora porque ia aparecer um pessoal da faculdade lá. O cara foi casado 5 vezes acredita. Gente fínissima o Raul. Ele só tem um problema. O cara tem um puta bafo de vodka…

E nem esperou respirar para imendar a pérola da noite.

- … Pior que o meu até.

Se contorcendo de tanto rir no banco do ônibus, acreditava que ter saído de sua bolha já tinha válido a pena.

Mas como todo bêbado qualquer ele começou a explicar o motivo de tantos porres. E foi tudo por causa de um coração partido.

O interesse na conversa não mudou por causa do teor da mesma. Reclamou, chorou, mostrou-se esperançoso. Mas não deixava de falar.

E conforme o caminho acabava seu cheiro se tornava cada vez mais impregnante, tanto que resolveu saltar 3 pontos antes da sua chegada.

- Meu amigo, o papo foi ótimo mas preciso descer.

- Olha, você é um cara muito legal. Gostei muito de conversar com você. Meu nome é Sérgio.

- Sérgio muito prazer – As apresentações já tinham sido feitas.

Levantou-se, espremeu-se e continuou ouvindo.

- Porque você é um cara muito bacana. Acho que eu vou ligar pra ela sim. Meu filho é um puta cara. Gostei muito de conversar com você.

O ônibus parou e se lembrou de como era respirar novamente.

Satisfeito pela noite que tivera, sorriu de canto de boca desacreditando em tudo.

Mas tudo pode melhorar.

E pendurado na janela, ouviu seu amigo bêbado qualquer gritar.

- TCHAU AMIGÃO.

Gargalhou e se arrependeu de não ter anotado seu email.

Desista

dezembro 2, 2008 por Daniel

“O maior de todos os projetos é tomar uma decisão.”

Marquês de Vauvenargues

Desistiu de entrar na faculdade. Desistiu de xavecar a garota mais bonita da festa. Desistiu de escrever um livro. Desistiu de voar. Desistiu até de sonhar.

Desistiu de ouvir música, de dançar, de sorrir.

Desistiu de trabalhar, de ter uma carreira, de ter dinheiro.

Mas ele nunca desistiu de desistir.

Sete Chaves

novembro 26, 2008 por Daniel

“Nada mais comum do que julgar mal as coisas.”

Marco Túlio Cícero

Seus dedos corriam livremente pela máquina de escrever. A cada toque, uma nova sensação, um novo sentimento. Uma obra prima nascia alia.

Ao tirar o papel, lia cheio de orgulho a maestria que acabará de escrever.

E mais uma história ia para o lixo.

Procurava entender a razão porque seus textos sempre tinham um tom agressivo aos olhos. Engraçado que até mesmo sua busca já rendeu uma folha a mais na cesta de idéias.

“… desnudo de emoções, desbravava os céus. Sentia na pele o frio e o calor da noite. E mesmo sabendo que não poderia descrever tais sentimentos, fechou os olhos e sorriu… “

Lixo.

Mais uma história que viria ser história.

Tudo era lindo e obscuro. Belo e tenebroso.

Tudo era dialético.

E como ironia, existia e não.

Um mundo privado do mundo, que só ele e a faxineira conheciam.

Frutos do Ócio

outubro 21, 2008 por Daniel

“Não há nenhum prazer em não ter nada para fazer: o divertido é ter milhares de coisa para fazer, e não fazer nada”

John W Raper

Precisou de tempo para se descobrir a farsa que era.

Na verdade, tempo foi a única coisa que não precisava.

Tinha todo ele na palma da mão.

E com o tempo e o lápis a disposição, descobriu essa revelação.

Bem, olhando para trás, percebe-se que sua vida não passava de uma ociosidade disfarçada.

Nunca levou nada muito a sério. Deixava na praia as idéias enquanto ia surfar. Mentira, ele não surfava, mas tinha vontade. De surfar, de fazer um mochilão, de aprender latim, de ganhar dinheiro. E com o lápis na mão, assistia seu seriado favorito.

Era óbvio que o tempo não ia perdoar. Passou junto de várias vontades. Ele crescia sem fazer nada.

Cozinhava bem, quando cozinhava, mas o seu maior hobby era ainda não fazer nada.

E contava seus sonhos com tanta convicção, que ninguém acreditava que não sairia do papel. Ou melhor do lápis.

Seguindo carreira em profissão de risco, onde se arrumam muitas desculpas para a malemolência, comeceu a sentir na pele e no lápis a sua falta de dedicação. A sua falta de ocupação para seu ócio. E seu próprio amigo chamava sua atenção. Ele também queria ter utilidade, porque é de conhecimento geral que o próprio ócio teme sua ociosidade.

Trabalhava até tarde, não por necessidade. Trabalhava até tarde para ter um tempo maior parado.

Não era um dia especial quando foi atropelado. Não era feriado, não chovia ou ventava. Era uma feira comum, como todas da semana. Mas foi o dia em que foi atropelado. E sua epifania não teve remorso em deixar ele desacordado no meio da rua.

A sensação de voar não era semelhante a de nenhum entorpecente que usava. Olhou para baixo e se viu realizando tudo aquilo que o lápis já sabia. Sentiu-se triste. Tentou se lembrar o que era o verdadeiro significado de epifania. Não conseguiu. Feito uma cena clássica de filme, foi ofuscado.

Não estava morto na hora que percebeu que devia olhar antes de atrevessar a rua. Mas ninguém que fica parado no meio de uma avenida, consegue contar a história depois.

Estendido no chão com o lápis quebrado entre os dedos, perdeu a reprise de um episódio que já tinha visto.

No silêncio do ponto

outubro 20, 2008 por Daniel

“Na solidão, encontramos muitas vezes o que perdemos na conversa.”

Olívia Sabuco

Quase tropeçou nas escadas. Viu que o motorista já tinha entrado e o ônibus estava pronto para sair.

Com passos descompassados correu.

Nessas horas de atraso só nos resta infrigir a lei. Sentou no banco amarelo e relaxou. Mais um dia estava acabando e junto do corpo, o estresse iria descansar também.

Fones nos ouvidos, cabeça na janela. Mesmo preparado, a soneca custava a entrar no ônibus.

Refletindo, viu um mendigo dançando por entres o carros. Sentiu raiva. Ele iria atrasar o seu tão sagrado descanso na sexta. Sentiu raiva e chegou a querer descer do ônibus para empurrar o mendigo para o seu devido lugar.

Pensou de novo.

Pensou no desespero que leva alguém a dançar sujo na rua. Pensou no pouco de atenção que ele queria.

Pensou em como se sentia sujo.

Quis escrever sobre isso, mas desistiu. Sua mente estava perturbada.

Tentando dormir começou a reparar.

Nas ruas, nas pessoas, no ônibus.

E viu, sentado na frente do volante, uma peça que ninguém mais nota.

A ferramenta que nos leva embora, que nos guia.

Ele passa despercebido, mas claro, ele é só um motorista de ônibus.

Mas esse não era uma estátua qualquer. Ele queria ter vida. Queria ser notado.

E foi reparando que ele percebeu. No primeiro ponto, subiu um homem, normal como todos os homens dos contos.

O motorista olhou, mas olhou com um olhar de tristeza amarga. Olhou, e na esperança de receber um simples boa noite recebeu o silêncio.

Portas fechadas em movimento. Porque só lembramos de que aquele guia só tem vida nos momentos de tensão, como por exemplo, quando comete um humano erro de abrir as portas. Ou frear bruscamente para salvar a pele de todos os seus passageiros.

No próximo ponto começou a chover. Olhou novamente. Silênciou novamente.

Murmurou algum comentário que só ele escutou. Ninguém repara ultimamente no que as estátuas tem para nos dizer.

A sequência de fatos se repetiu até a chegada a hora do desembarque.

Sem olhares, sem boa noites, sem sorrisos ou obrigados, ele seguia todo dia o mesmo caminho, levando sempre as mesmas pessoas. Abrindo e fechando portas.

Deixando em cada ponto um pedaço da sua esperança.

Passou pela catraca, sem dizer nada.

Olhou para a outra figura e não se permitiu pensar em mais nada.

Estava tonto de tantos pensamentos.

Ficou irritado com uma situação de que era cúmplice e culpado.

Quase tropeçou nas escadas. Sentiu a brisa fria e cortante no seu rosto.

Quis escrever sobre isso, mas pensou que tudo isso era falta de sono, e que o motorista não se importava se as pessoas não percebiam sua presença lá. Se conformou, abaixou a cabeça, ascendeu um cigarro.

Cansado, foi para casa.

outubro 16, 2008 por Daniel

“Aquele velho trapaceiro careca, o tempo”

Francis Bacon

Tenho medo do segundo. Não existe fator mais inconstante quanto o segundo.

Seria estupidez dizer que o segundo muda a cada segundo. Sim, esse é o óbvio. Mas não é estupidez maior deixar de pensar que o segundo muda a cada segundo.

Aquele segundo antes de começar uma briga, uma gritaria. Aquele momento chega ser até infinito num piscar de olhos, e nada fazemos. Nós temos o segundo antes.

O segundo antes da chuva cair, antes do copo cair. É apenas um segundo, que muda toda a história.

E ele, me aterroriza. O segundo antes do sorriso fechar e da lágrima escorrer. É esse o segundo que faz a diferença. Que cala e consente com o ódio. E conserta. Alivia.

É o segundo que separa o grito do silêncio. O prazer do descanso.

E rastejando por dentre de todas as ações e reações. Calado o segundo molda nosso destino.

E não consigo deixar de pensar que um segundo antes do escuro tem luz.

Um segundo antes da sede tem água.

Que um segundo antes da morte, tem vida.